A imprensa baptizou o caso em três horas: “A Perita da Mentira”. O rosto de Inês apareceu em ecrãs de pastelarias, táxis e telemóveis alheios, sempre acompanhado da mesma fotografia roubada das redes sociais, uma imagem antiga em que sorria num casamento e parecia culpada apenas por existir.
O instituto suspendeu-a “para preservar a credibilidade da investigação”. Duarte, pelo contrário, surgiu numa conferência, grave e impecável, prometendo colaboração total com as autoridades. Nunca disse o nome dela, mas falou de “paixões pessoais que toldam a objectividade científica”. Foi o suficiente para que toda a gente entendesse.
Quem não se deixou enganar foi Matilde Sanches, advogada conhecida por defender trabalhadoras silenciadas em instituições elegantes. Usava fatos claros, ténis brancos e uma irritante capacidade de fazer perguntas simples que arruinavam mentiras complexas.
— Vai dizer-me exactamente o que escondeu — disse Matilde no primeiro encontro.
— Eu não escondi nada.
— Escondeu que dormia com o director-adjunto. Isso não a torna criminosa, mas torna-a vulnerável.
Inês sentiu vergonha, depois raiva por sentir vergonha.
— Ele não era só meu chefe.
— Nunca são só uma coisa. É por isso que vencem.
Matilde reuniu um pequeno exército de mulheres descartadas pelo instituto: Amélia, a moldureira; Sara, técnica de arquivo despedida depois de denunciar contratos duplicados; Joana, estagiária que guardara emails onde Duarte pedia “ajustes de narrativa” em pareceres; e até Helena Vilar, neta do proprietário do quadro, que confessou não querer vender uma obra talvez assinada por uma mulher da sua família artística, mas estar a ser pressionada pelos tios.
O plano era simples: transformar o julgamento preliminar, que decidiria se Inês seria formalmente acusada, num espelho. Se Duarte tivesse manipulado acessos, removido a tira de tela e abafado a autoria de Leonor, teria deixado marcas. Homens como ele confiavam demasiado no medo dos outros.
Na véspera da audiência, Inês recebeu uma mensagem de Duarte: “Encontra-me no miradouro. Dou-te a verdade antes que ela te destrua.”
Matilde proibiu-a de ir. Inês foi.
Duarte esperava junto à grade, com Lisboa acesa por baixo como uma promessa de absolvição. Parecia cansado. Pela primeira vez, não parecia invencível.
— Eu não quis magoar-te — disse.
— Essa frase devia ser crime.
Ele riu sem alegria.
— A tira de tela provava Leonor. Mas também provava outra coisa: que o quadro foi roubado a um convento durante uma evacuação, não comprado legalmente pelos Vilar. Se isso viesse a público, o Estado ficava com a obra, a família perdia milhões e o instituto perdia patrocinadores. Eu era novo. Disseram-me que era assim que se protegia o património.
— E depois continuaste.
— Depois percebi que a verdade raramente paga salários.
Inês gravava tudo com um microfone preso ao colar, ideia de Matilde. Duarte, porém, olhou para o brilho mínimo do dispositivo.
— Achas mesmo que eu não te conheço?
Tirou do bolso uma pequena caixa metálica e ligou um emissor. O telemóvel dela morreu. O gravador também.
— Amanhã vais aceitar um acordo — disse ele. — Um erro técnico, uma multa, carreira salva no privado. Eu garanto.
— E Leonor?
— Morta há trezentos anos.
Inês deu-lhe uma estalada. Não por amor acabado. Por todas as mulheres chamadas assistentes quando tinham sido autoras.
Ao regressar, encontrou Matilde à porta de casa, furiosa. Antes que a advogada falasse, Inês mostrou a palma da mão: durante a estalada, arrancara a Duarte um fio preso no botão de punho. Um fio azul, impregnado de pigmento antigo.
Matilde sorriu.
— Finalmente. Uma prova pequena para um homem demasiado grande.