O arquivo morto ficava no piso -2, onde os desumidificadores faziam um rumor de respiração doente. Inês chegou às 7h06. Levava o telemóvel a gravar dentro do bolso da gabardina e uma lâmina de bisturi escondida na manga, mais por medo do que por coragem.
A pessoa que a esperava era Amélia Faria, setenta anos, antiga moldureira do instituto, reformada e invisível para todos excepto para quem ainda precisava das suas mãos. Tinha os dedos deformados pela artrite e os olhos de quem passara a vida a fingir que não via.
— A menina encontrou a mancha azul — disse Amélia.
Inês gelou.
— Como sabe?
— Porque fui eu que abri a moldura há doze anos. O quadro não estava como está agora. Havia uma tira de tela dobrada na margem, com escrita. Tiraram-na.
— Quem?
Amélia olhou para as câmaras no tecto. Uma estava desligada; a outra fingia funcionar.
— Um homem novo, bem-falante. Na altura ainda não mandava. Chamava-se Duarte Seabra.
O nome bateu em Inês antes do sentido. Duarte. O homem que lhe deixava laranjas na secretária quando ela se esquecia de almoçar. O homem que lhe dizia que a cidade parecia menos hostil quando ela caminhava ao lado dele.
— Tem provas?
Amélia abriu a mala e retirou um envelope pardo. Dentro havia uma fotografia antiga, tremida, mostrando a parte de trás do quadro sem a moldura actual. Via-se, numa dobra lateral, uma inscrição incompleta: “Leonor fez-me no inverno em que...”
Antes que Inês pudesse tocar-lhe, ouviu-se um estalo metálico. A porta do arquivo fechou-se.
Amélia empalideceu.
— Não devia ter vindo — murmurou.
O sistema de incêndio disparou sem fogo. Espuma química começou a cair do tecto, cobrindo caixas, chão, sapatos. Inês agarrou Amélia pelo braço e tentou abrir a porta. Bloqueada. O ar encheu-se de pó irritante.
Foi então que o telefone de Inês tocou. Duarte.
Ela atendeu em alta-voz.
— Onde estás? — perguntou ele, demasiado calmo.
— No inferno que alguém preparou.
Houve um silêncio breve.
— Não te mexas. Vou buscar-te.
— Como sabes onde estou?
Duarte não respondeu.
Inês desligou. Com a lâmina, abriu a protecção de plástico do puxador de emergência. Amélia, apesar das mãos tortas, ensinou-lhe onde pressionar. Saíram para o corredor segundos antes de a espuma cobrir o envelope. A fotografia ficou manchada, mas não destruída.
No átrio, funcionários corriam. Duarte apareceu de camisa amarrotada, convincente como um herói convocado pelo destino. Tentou abraçá-la. Inês recuou.
— Foste tu?
Ele baixou a voz.
— Cuidado com o que perguntas em público.
Nesse instante, dois agentes da Polícia Judiciária entraram no instituto. Não procuravam Duarte. Procuravam Inês.
— Doutora Valente? Está intimada a prestar declarações. O relatório oficial do quadro foi alterado no seu acesso informático. Há indícios de falsificação documental.
Inês percebeu o golpe: a sua palavra contra o sistema, contra Duarte, contra um rasto digital fabricado com a sua senha. Amélia apertou-lhe a mão e sussurrou:
— Menina, diga tudo. Mesmo que tremam.
Mas quando Inês olhou em volta, Duarte já desaparecera.