Ficaram presos vinte e três minutos, tempo suficiente para Tomás perceber que Inês tinha medo de espaços fechados e orgulho bastante para não o admitir. Ela encostou-se à estante metálica, respirando curto. Ele acendeu a lanterna do telemóvel e manteve a luz baixa, sem a apontar ao rosto dela.
— Conte comigo — disse.
— Não preciso de terapia.
— Ainda bem. Sou caro e não tenho jeito.
Desta vez, foi ela que quase sorriu. O gesto durou um segundo, mas alterou qualquer coisa entre ambos. A desconfiança continuava lá, afiada, só que já não estava sozinha.
Quando as portas abriram, descobriram que o quadro não fora rasgado. A fotografia era uma montagem. Mas Marta Sequeira deixara uma mensagem gravada para a comissão: encontrá-los-ia nessa noite no antigo cinema Éden, fechado há anos, e só falaria com Inês.
Tomás proibiu-a de ir. Inês foi na mesma. Ele apareceu no banco de trás do táxi, como se a sua teimosia tivesse direito a escolta.
— Isto é assédio laboral — disse ela.
— É prevenção criminal.
— Chama-lhe o que quiser. Não me dá ordens fora do museu.
— Ainda bem que não vim para mandar. Vim para impedir que a matem.
O cinema Éden cheirava a pó, humidade e cartazes mortos. No palco, iluminada por uma lanterna, Marta Sequeira parecia mais velha do que os seus trinta e poucos anos. Tinha uma cicatriz fina no queixo e os olhos inquietos de quem fez demasiados pactos.
— Inês — disse ela. — Desculpa.
Inês parou a dois metros.
— Cinco anos tarde.
Marta engoliu em seco.
— O incêndio foi encenado para esconder a venda das cartas. Eu devia abrir a porta, tirar-te de lá e dizer que tinha sido um acidente. Mas quando percebi que iam culpar-te, já era tarde. Vasco tinha gravações minhas a roubar medicamentos do armazém do museu para o meu irmão. Usou isso.
Tomás ligou o gravador.
— Tem provas?
Marta riu-se, sem alegria.
— Tenho melhor. Tenho a lista dos compradores e a rota do dinheiro. A “Dama da Raposa” é a próxima peça. Não é falsa. É verdadeira. E é por isso que vai desaparecer sexta-feira.
Inês sentiu o chão inclinar-se.
— Então porque me acusam de falsificar o relatório?
— Porque precisam que a seguradora acredite que ninguém sabia o valor real. Se a peça desaparecer depois de parecer suspeita, o museu reclama menos, a polícia investiga mal, e o original segue para um coleccionador que paga em criptomoeda e favores políticos.
Um ruído veio da plateia. Tomás empurrou Inês para trás de uma coluna no instante em que um disparo destruiu a lanterna de Marta. O escuro encheu-se de gritos e passos.
Quando conseguiram alcançá-la, Marta estava viva, mas a pasta que trazia desaparecera. Na palma da mão, porém, segurava um pedaço de papel arrancado à pressa. Tinha apenas um nome escrito: “Leonor”.
Inês reconheceu-o antes de Tomás perguntar. Leonor era a curadora-chefe, sua mentora, a única pessoa no Palácio das Marés que a defendera depois do incêndio.