Leonor Sanches recebeu Inês numa pequena livraria do Príncipe Real, longe dos gabinetes onde os homens decidiam o futuro das mulheres em mesas redondas e fotografias oficiais. Tinha sessenta anos, cabelo branco cortado rente e uma serenidade que parecia mais treino do que temperamento.
— Acredita em mim? — perguntou Leonor.
Inês demorou a responder.
— Acredito que alguém quer que eu não acredite.
Leonor sorriu.
— É um começo honesto.
Contou-lhe então a parte que nunca chegara aos jornais: Marta Vale descobrira que “A Dama do Arminho Azul” não era uma obra perdida, mas uma falsificação sofisticada construída sobre uma tela antiga. A Fundação planeava usá-la para atrair investidores, inflacionar seguros e consolidar poder político no sector cultural. Leonor recusara encobrir o esquema. Por isso, precisava de cair antes da votação.
— A sua irmã trouxe-me amostras de pigmento — disse Leonor. — Íamos denunciar tudo. Depois houve o incêndio.
Inês apertou o copo de chá até sentir dor nos dedos.
— Porque não me procurou?
— Porque recebi uma mensagem do número da Marta a dizer: “Se falares, a Inês é a próxima.”
A raiva de Inês mudou de forma. Deixou de ser fogo e tornou-se lâmina.
Duarte, que aguardava do lado de fora, entrou quando ouviu vozes exaltadas. Leonor fitou-o com desprezo.
— O rapaz da maquilhagem moral.
— Merecido — admitiu ele. — Mas estou do vosso lado agora.
— Os homens dizem isso quando percebem que o barco onde iam já cheira a fumo.
Inês quase sorriu. Pela primeira vez desde que vira a fotografia, sentiu que não estava sozinha.
O plano nasceu entre estantes de poesia: Leonor manteria o debate público; Duarte conseguiria que Vasco aceitasse retractar-se; Inês entraria no arquivo morto da Lúmina para recuperar os backups apagados. Precisavam de uma cadeia de prova: actas, pagamentos, mensagens e o relatório original de Marta.
— E se a Helena vos apanhar? — perguntou Leonor.
— Apanha — disse Inês. — A questão é se antes ou depois de eu copiar tudo.
Nessa noite, Inês e Duarte ficaram presos no elevador de serviço da Torre do Tejo durante nove minutos que pareceram uma confissão. A luz de emergência pintava-lhes o rosto de vermelho.
— Eu quis sair deste tipo de trabalho — disse Duarte. — Mas é viciante ser necessário a pessoas poderosas.
— Isso não é necessidade. É coleira.
Ele olhou para ela.
— E tu? Porque ficaste tantos anos numa empresa que te ensinou a não sentir?
Inês pensou em Marta, sempre luminosa, sempre imprudente, sempre a dizer que a irmã mais velha confundia prudência com medo.
— Porque sentir dá trabalho. E eu era boa a trabalhar noutras coisas.
O elevador voltou a mexer-se. Antes das portas abrirem, Duarte aproximou-se, mas parou a um centímetro dela.
— Não te vou pedir que confies em mim.
— Óptimo.
— Vou dar-te motivos.
Quando chegaram ao arquivo morto, a porta estava aberta. Lá dentro, as prateleiras tinham sido esvaziadas. No centro da sala, sobre uma mesa metálica, havia um envelope com o nome de Inês.
Dentro estava o crachá de Marta. Manchado de fuligem.
E um bilhete: “Última oportunidade. Escolhe a tua irmã morta ou a tua carreira viva.”