O Atelier 9 fora o antigo espaço de restauro da Fundação Alabastro, fechado após um incêndio meses antes. Oficialmente, não houvera feridos nem perdas relevantes. Extraoficialmente, Inês lembrava-se de um boato: uma técnica desaparecera durante três dias e regressara sem explicar onde estivera.
Na manhã seguinte, Inês pediu acesso aos arquivos da seguradora. Foi bloqueada. Pediu registos de entrada do museu. Foram apagados. Pediu a Duarte que deixasse de a seguir pelos corredores.
— Não te sigo — disse ele, encostado à máquina do café. — Antecipar movimentos é diferente.
— Então antecipa isto: vou falar com a testemunha.
Duarte perdeu o sorriso.
— O restaurador? Vasco Mireles? Ele está escondido num hotel, protegido por advogados da Fundação.
— Como sabes?
— Porque fui eu que o preparei para a entrevista.
A frase caiu entre ambos como vidro partido.
Inês sentiu a humilhação antes da raiva. Durante duas semanas, Duarte partilhara almoços, ironias e madrugadas de trabalho com ela. Tinha-lhe falado da mãe doente, da infância em Setúbal, da sua mania de guardar bilhetes de cinema. Ela quase acreditara que, por trás da armadura, havia um homem cansado de manipular verdades.
— Então és parte disto.
— Sou parte do que me disseram ser uma defesa preventiva. Vasco afirmou ter visto Leonor aceitar dinheiro. Eu não inventei o depoimento.
— Mas poliste-o.
— Fiz o meu trabalho.
— O teu trabalho está a destruir uma mulher.
Duarte baixou a voz.
— E o teu pode destruir-te a ti.
Inês virou costas, mas ele agarrou-lhe a mão. Não com força. Com urgência.
— Há uma coisa que não te contei. Vasco não queria aparecer. Mudou de ideias depois de receber uma fotografia.
— Que fotografia?
— Uma janela do Atelier 9. Com alguém lá dentro na noite do incêndio.
Inês foi ao hotel nessa tarde. Fingiu ser assessora jurídica, atravessou dois seguranças com a confiança de quem nunca pede desculpa e encontrou Vasco Mireles na varanda do quarto, a fumar apesar do alarme de incêndio no tecto.
Ele era mais novo do que parecia na televisão. Tinha olheiras antigas e mãos de quem passara a vida a tocar coisas frágeis.
— Não vi Leonor receber dinheiro nenhum — disse ele antes de Inês abrir a boca. — Disseram-me que bastava confirmar uma suspeita.
— Quem disse?
Vasco riu, sem alegria.
— Toda a gente quer nomes. Ninguém pergunta porquê.
— Eu pergunto.
Ele mostrou-lhe a fotografia no telemóvel. A janela do Atelier 9, iluminada por chamas ao fundo. E, atrás do vidro, uma mulher de perfil com um lenço verde no pescoço.
Inês reconheceu o lenço. Pertencia a Marta Vale, sua irmã mais nova, antiga estagiária da Fundação, morta oficialmente num acidente de carro duas semanas depois do incêndio.
O chão desapareceu.
— Onde arranjou isto?
Vasco apagou o cigarro.
— Foi deixada no meu cacifo com uma mensagem: “Mente por nós ou a família dela saberá que não morreu como pensa.”
Quando Inês saiu do hotel, Duarte esperava-a no passeio, encharcado pela chuva.
— Inês, eu não sabia da tua irmã.
Ela deu-lhe uma estalada. Não foi teatral. Foi curta, seca e merecida.
— Agora sabes. E se voltares a esconder-me uma verdade, não te trato como inimigo. Trato-te como prova.