Inês Vale nunca tinha chegado atrasada à Torre do Tejo. Era auditora interna da Lúmina & Fialho, uma consultora de reputação impecável que aconselhava bancos, museus e campanhas políticas. O seu mundo era feito de números, carimbos e silêncios. Sobretudo silêncios.
Naquela segunda-feira, porém, a cidade parecia conspirar contra ela: greve no metro, chuva oblíqua e um salto partido à entrada do átrio de mármore. Quando subiu ao décimo segundo piso, de sapato na mão e orgulho ferido, encontrou Duarte Lobo sentado na sua secretária.
— O teu lugar tem melhor vista — disse ele, sem levantar os olhos do portátil.
Duarte era o novo director de crise, contratado a peso de ouro depois de ter salvado um ministro de uma comissão parlamentar humilhante. Tinha fama de sedutor, memória de tribunal e a irritante capacidade de sorrir como se já soubesse a resposta antes da pergunta.
— O meu lugar também tem dona — respondeu Inês.
Ele virou o ecrã. No centro, brilhava um ficheiro: “Acta 9 — Confidencial”.
— A dona vai querer ver isto.
Inês aproximou-se. A acta pertencia a uma reunião do conselho de administração da Fundação Alabastro, proprietária de um museu privado prestes a inaugurar a exposição “A Dama do Arminho Azul”, uma pintura renascentista recém-descoberta. A Lúmina & Fialho geria a comunicação do evento e, em paralelo, a campanha pública de Leonor Sanches, candidata à presidência da Associação Nacional de Empresas Culturais. Seria a primeira mulher a ocupar o cargo.
Na acta, porém, havia uma frase impossível: “Proceder à neutralização reputacional de L.S. através de testemunho preparado.”
Inês sentiu o sangue fugir-lhe da cara.
— Isto não é linguagem nossa.
— Não devia ser — disse Duarte. — Mas está no nosso servidor.
Antes que ela pudesse responder, o telefone tocou. Era Helena Fialho, fundadora da empresa, mulher de voz baixa e decisões definitivas.
— Inês, preciso de si na sala Orion. Agora. E traga o Duarte.
A sala Orion estava cheia de sócios, advogados e medo disfarçado de café. No ecrã passava uma notícia de última hora: “Testemunha acusa Leonor Sanches de suborno em aquisição de quadro raro”. A testemunha era um antigo restaurador do museu. A acusação chegava na véspera do debate final.
Helena fixou Inês.
— A nossa cliente é a Fundação. Leonor tornou-se um risco colateral. Quero uma auditoria limpa, sem ruído. Confirmamos que não há envolvimento da Lúmina e encerramos o assunto.
— E se houver envolvimento? — perguntou Inês.
O silêncio que se seguiu foi uma ameaça.
Duarte tocou-lhe discretamente no pulso, como se a avisasse para não atravessar uma linha invisível. Mas Inês já vira a marca na acta: alguém dentro da empresa preparara uma queda pública. E, pela primeira vez em anos, a sua lealdade ao método entrou em conflito com a obediência.
Nessa noite, ao sair, encontrou no bolso do casaco um papel dobrado. Não tinha assinatura. Apenas uma frase: “O Atelier 9 não ardeu por acidente.”