Aurora Sequeira vivia no quarto 17 do Lar Nossa Senhora das Marés, entre uma janela para a ponte e uma mesa coberta de aguarelas. Não falava desde um AVC, mas pintava todos os dias a mesma cena: uma sala azul, uma mulher de cabelo preso, um homem com luvas brancas e uma rapariga escondida atrás de uma cortina.
Marta percebeu de imediato que a mulher era a mãe. A postura, o lenço no pulso, até a forma de inclinar a cabeça: Leonor.
Tomás mostrou a Aurora uma fotografia de Estêvão Lemos. Ela começou a tremer. Depois agarrou no pincel e desenhou, com força inesperada, uma chave dourada e três letras: A.M.S.
— Álvaro Meireles da Silva — disse Marta. — O director financeiro da Lusitânia.
Tomás ficou pálido.
— Ele não trabalhava na seguradora nessa altura. Era secretário pessoal de Estêvão Lemos.
A ligação fechou-se como uma armadilha. Álvaro acompanhara a colecção durante décadas, mudara de lado quando a família precisou de uma seguradora e preparava agora a apólice para uma peça que talvez soubesse ser falsa.
Aurora continuou a pintar. Desta vez desenhou uma criança. Uma menina escondida na sala azul, a assistir à troca dos quadros.
— Quem é ela? — perguntou Marta, embora soubesse que Aurora não responderia.
A velha senhora apontou para uma fotografia na cómoda: uma jovem enfermeira, cabelo ruivo, olhos verdes. No verso lia-se: Inês, a minha neta.
Encontraram Inês no turno da noite do Hospital de Santa Marta. Ao princípio, recusou falar. Depois, quando Marta lhe mostrou a cicatriz no maxilar, a enfermeira desarmou-se.
— A minha avó disse-me que, se alguma mulher com uma marca viesse perguntar pela Dama, eu devia entregar isto.
Do cacifo, Inês retirou uma caixa metálica. Dentro havia uma carta de Leonor Mota, escrita na véspera da sua morte, e um pequeno fragmento de marfim com tinta azul.
A carta não era confissão. Era acusação.
Leonor explicava que descobrira a substituição da pintura original por uma cópia perfeita, organizada por Estêvão Lemos para vender a verdadeira no mercado negro e cobrar seguros sobre a falsa. Álvaro ajudara-o. Quando Leonor ameaçou denunciar, forjaram a sua culpa. A única prova era um detalhe que só a restauradora conhecia: a verdadeira Dama tinha, sob a camada de verniz, uma inscrição em marfim retirada de um leque antigo.
“Se a minha filha algum dia for acusada por homens que sorriem enquanto mentem, digam-lhe que não nasceu para pedir licença”, terminava a carta.
Marta chorou sem fazer barulho. Tomás segurou-lhe a mão. Ela deixou.
O momento durou pouco.
À saída do hospital, foram cercados por jornalistas. Alguém tinha filtrado que Marta manipulava provas para vingar a mãe. Em directo, os canais falavam da “auditora marcada” outra vez.
No meio dos flashes, Álvaro apareceu no ecrã gigante de uma carrinha de notícias, a dar uma conferência.
— A Lusitânia Risco foi vítima de uma conspiração. Amanhã entregaremos tudo ao tribunal.
Marta percebeu o plano: Álvaro ia acusá-la antes que ela pudesse acusá-lo.
E Tomás recebeu nesse instante uma notificação formal: fora chamado como testemunha contra Marta.