Tomás Alarcão devia ter denunciado Marta no primeiro instante em que percebeu que ela cavava demasiado fundo. Era o seu dever profissional. A família Lemos pagava-lhe para blindar a herança, garantir a venda da colecção e silenciar disputas antes que se tornassem manchetes.
Mas, ao vê-la trabalhar até tarde, sozinha no piso vinte e três, com os sapatos abandonados debaixo da secretária e uma concentração feroz no rosto, Tomás lembrou-se do pai dele, juiz reformado, que repetia: “A verdade não precisa de aliados, mas as pessoas precisam.”
— Está a invadir ficheiros confidenciais — disse ele, encostado à porta.
Marta nem levantou a cabeça.
— Estou a seguir metadados. É menos romântico.
— Se encontrar alguma coisa, terá de ma entregar.
— E se essa coisa provar que os seus clientes estão a vender uma falsificação avaliada em quarenta milhões?
— Então terei um problema.
— Só um?
A tensão entre ambos já não era apenas profissional. Era uma corda esticada por cima de um precipício. Marta desconfiava dele, mas quando Tomás lhe passou discretamente uma pen com cópias dos inventários originais da família, percebeu que ele também estava a atravessar uma linha.
— Porque me ajuda? — perguntou.
— Porque o inventário oficial foi alterado depois da morte de Estêvão Lemos. E porque a minha assinatura aparece num documento que nunca assinei.
A revelação caiu pesada. Alguém estava a usar Tomás como escudo.
Nas horas seguintes, descobriram que A Dama do Marfim tinha desaparecido durante uma exposição privada, vinte anos antes, em Cascais. Na mesma noite, uma jovem restauradora fora acusada de negligência e desaparecera da vida pública. Chamava-se Leonor Mota.
L.M.
A mãe de Marta.
Marta sentiu o chão inclinar-se. A história que sempre lhe contaram era simples: Leonor enlouquecera depois de um erro profissional, afastara-se do mundo da arte e morrera pobre, deixando à filha uma caixa de cartas e silêncio. Mas se a inscrição no marfim era dela, talvez Leonor não tivesse destruído nada. Talvez tivesse descoberto uma fraude.
— A minha mãe foi marcada antes de mim — murmurou Marta.
Tomás aproximou-se, mas não a tocou.
— Há uma testemunha viva dessa noite. Uma empregada da casa Lemos. Chama-se Aurora Sequeira. Está num lar em Alcântara e nunca aceitou falar.
— Nunca aceitou ou nunca a deixaram?
A resposta chegou antes dele falar: as luzes do piso apagaram-se de repente. O sistema de segurança bloqueou as portas. No ecrã da sala principal surgiu uma única frase: “Parem de procurar, ou a próxima assinatura será feita em sangue.”
Quando a energia voltou, a pen tinha desaparecido da mão de Tomás.
E Marta tinha uma gota de tinta vermelha na palma, embora não tivesse tocado em nada.