Nos dias seguintes, Leonor aprendeu que ser escolhida por Vasco Alvarenga era uma forma sofisticada de ameaça. Todos lhe sorriam mais. Todos lhe pediam menos. Todos a observavam como se ela tivesse uma doença contagiosa.
No corredor de vidro que ligava a banca privada à fundação, Diogo caminhou ao lado dela sem pedir autorização.
— Ele pôs-te numa vitrina — disse.
— Obrigada pela análise arquitectónica.
— Se encontrares alguma coisa, és cúmplice por ter tido acesso. Se não encontrares, és cúmplice por ter encoberto. Brilhante, não é?
Leonor parou.
— Estás a tentar ajudar-me ou assustar-me?
— As duas coisas não são incompatíveis.
Ela odiou o facto de ele ter razão. Odiou ainda mais o modo como, ao contrário dos outros, Diogo não fingia que a situação era normal.
— Quem és tu afinal? — perguntou.
O sorriso dele desapareceu por um instante.
— Alguém que perdeu uma causa contra Vasco há dez anos.
— Uma causa?
— O meu pai era restaurador. Morreu acusado de falsificar obras que nunca falsificou. A acusação destruiu-lhe a reputação antes do coração desistir. O nome Alvarenga apareceu nos bastidores, nunca nos autos.
Leonor esperava ressentimento na voz dele. Ou fúria. Encontrou apenas precisão, e isso assustou-a mais.
— Então vieste para aqui por vingança.
— Vim por prova.
Leonor pensou na mensagem sobre Marta. Pensou na fotografia da mulher com a fita azul no pulso. Pensou na própria carreira, construída sem favores, agora pendurada num fio que outra pessoa segurava.
— Eu não sou a tua aliada — disse.
— Ainda não.
Naquela noite, Leonor foi ao hospital falar com Marta. Encontrou-a no parque de estacionamento, sentada dentro do carro, as mãos no volante, sem ligar o motor.
— Estão a apertar-me — confessou Marta. — Querem que eu assine uma declaração a admitir negligência. Dizem que assim fico só suspensa. Se não assinar, avançam com crime.
— Quem disse isso?
Marta hesitou.
— Um advogado do conselho de administração. Não me deu cartão.
Leonor fechou os olhos. O Hospital de Santa Clara recebia donativos da Fundação Alvarenga.
— Não assines nada.
— E se eu perder tudo?
Leonor quis prometer que isso não aconteceria. Mas havia promessas que eram apenas mentiras com boa intenção.
Quando regressou a casa, encontrou um envelope sem remetente debaixo da porta. Lá dentro havia uma pen USB e uma fotografia antiga. Na fotografia, o pai de Diogo surgia ao lado de um quadro inacabado: a mesma mulher à janela, mas sem fita azul no pulso.
Na pen havia apenas um ficheiro de áudio.
Leonor carregou no play.
Uma voz de mulher, trémula, dizia:
— Se isto vier a público, ele cai. Mas se me chamarem a tribunal, eu nego. Não por medo de morrer. Por medo do que fazem aos vivos.
Depois ouvia-se outra voz, masculina, serena:
— Diga só onde está a marca original.
A mulher respondeu:
— Debaixo do azul.
Leonor ouviu o ficheiro três vezes.
Depois ligou a Diogo.
— Amanhã — disse ela — vais levar-me ao quadro.
Do outro lado, ele ficou em silêncio por um segundo.
— Sabes que, depois disso, não há volta.
— Já não havia.