Clara afastou-se de Duarte como se a mensagem tivesse sido uma faca.
— Sabia?
— Não — respondeu ele depressa. — Clara, juro que não.
— Os Falcão juram muito bem. Deve vir no brasão.
Ele tentou segui-la, mas ela subiu as escadas sem olhar para trás. No salão principal, a conferência de imprensa começava. António Falcão sorria para as câmaras, ladeado por Beatriz. O quadro Senhora do Inverno estava exposto atrás deles: a mulher pintada olhava o público com uma calma cruel, envolta numa capa de arminho que parecia neve e sangue ao mesmo tempo.
— A arte deve circular livremente — dizia António. — A nossa casa sempre serviu a verdade.
Clara quase se riu.
Então as luzes falharam.
Durante três segundos, o palacete mergulhou numa escuridão completa. Ouviram-se gritos, passos, vidro a partir. Quando a luz voltou, o quadro já não estava no cavalete.
O caos foi imediato. Seguranças fecharam portas. Clientes exigiram advogados. Beatriz culpou activistas. António levou a mão ao peito, teatralmente. Duarte procurou Clara no meio da multidão.
Ela estava imóvel junto à parede, a olhar para o chão. Aos seus pés, havia uma pequena lasca dourada de moldura e, presa a ela, uma etiqueta antiga meio queimada. Clara apanhou-a antes que alguém reparasse.
Na etiqueta, sob camadas de cola ressequida, lia-se uma palavra que lhe gelou o sangue: “Vale”.
Duarte aproximou-se.
— Tens de sair daqui. Vão tentar pôr isto em cima de ti.
— Já estão a tentar pôr tudo em cima de mim desde que eu tinha sete anos.
Ele respirou fundo.
— A mensagem que viste veio de um número descartável. Mas há uma coisa que não te contei. Há seis meses, encontrei transferências antigas ligadas ao meu avô. Pagamentos a polícias, peritos, galeristas. O teu quadro não é o único.
— Porque não denunciaste?
— Porque a única pessoa que me ajudava a reunir provas morreu num acidente há três semanas.
Clara pensou na frase da jornalista: alguém que não quer chegar vivo ao fim desta semana.
— Quem era?
Duarte olhou para o avô, rodeado de câmaras, tão frágil e tão poderoso.
— A minha mãe.
A revelação atravessou Clara como um fósforo aceso. A mãe de Duarte, que oficialmente vivia afastada da família por “razões de saúde”, afinal investigava a própria casa.
Antes que pudesse responder, dois inspectores entraram no salão. Um deles dirigiu-se directamente a Clara.
— Clara Vale? Está detida por suspeita de furto qualificado.
Duarte colocou-se à frente dela.
— Ela estava comigo.
Beatriz sorriu ao longe, quase imperceptivelmente.
— Não o tempo todo — disse o inspector.
E Clara entendeu: o quadro desaparecido era só o anzol. Ela era o peixe. E Duarte, se a defendesse, afundar-se-ia com ela.