Inês não gritou quando Clara lhe contou. Isso foi pior.
— Dormiste com o homem que pode destruir o processo?
— Não foi assim.
— Então foi como? Poético? Ilegal? Estúpido?
Clara levantou-se.
— Passei a vida a ser a irmã que precisa de protecção. A funcionária que ninguém vê. A mulher marcada por uma história que todos sabiam menos eu. Não me fales como se eu fosse uma peça de prova.
Inês ficou calada. Depois abriu a mala e tirou um envelope amarelecido.
— Tens razão. Então começa a ser protagonista.
Dentro do envelope havia cartas de Amália Sotto. Cartas a uma filha pequena, escritas como despedidas, mas nunca enviadas. Falavam de leilões clandestinos, de pinturas trocadas por favores políticos, de homens respeitáveis que compravam silêncio com bolsas de estudo, casamentos e cargos públicos.
E falavam de três mulheres: Amália, uma conservadora chamada Greta Weiss, e Lurdes Faria, empregada de limpeza na antiga embaixada onde tudo acontecera. As três reuniram provas. Só uma sobreviveu.
— Lurdes ainda está viva — disse Inês. — Num lar em Setúbal. Nunca quis depor. Tem medo.
Foram as duas nessa tarde. Pelo caminho, Clara recebeu mensagens de Duarte sem responder. “Não fui eu.” “A pen desapareceu antes de eu sair.” “Há câmaras no corredor.” “Clara, estão a usar-nos.”
Lurdes Faria tinha noventa anos e olhos de faca. Recebeu-as num salão com cheiro a sopa e desinfectante.
— Eu sabia que a neta da Amália vinha — disse ela, olhando para a marca azul de Clara. — As mulheres da vossa família carregam sempre um sinal. Não é bênção. É lembrete.
— Lembrete de quê? — perguntou Clara.
— De que o corpo não deixa a história mentir para sempre.
Lurdes contou que Amália não fora morta por acaso. Descobrira que o retrato do arminho azul escondia, sob a camada de tinta, uma lista de nomes. Não no verso, não num documento separado: dentro da própria pintura, escrita com pigmento metálico, visível apenas sob uma luz específica. Nomes de compradores, falsificadores e intermediários.
— A prova esteve sempre no quadro — murmurou Inês.
— E a galeria vai vendê-lo amanhã para fora do país — disse Clara.
Lurdes agarrou-lhe a mão com uma força impossível.
— Há uma testemunha que nunca falou.
— Quem?
— O rapaz que viu Amália ser levada. Filho do homem que limpou o salão depois. Hoje é ministro da Cultura.
O ar faltou às duas irmãs.
Na televisão do lar, nesse exacto momento, passava uma conferência de imprensa. O ministro anunciava com voz solene que a venda da colecção Hohenberg representava “um triunfo para a diplomacia cultural portuguesa”. Ao lado dele estava Duarte.
Clara sentiu a humilhação queimar-lhe a garganta.
— Ele mentiu-me.
Inês tocou-lhe no ombro.
— Talvez. Ou talvez esteja preso como nós.
No ecrã, Duarte ajustou os punhos da camisa e olhou directamente para a câmara. Depois fez um gesto mínimo: bateu duas vezes no pulso esquerdo.
O mesmo sinal que Clara lhe mostrara sem querer na noite anterior, ao falar da marca.
Não era uma saudação. Era um aviso.