Dois dias depois, o país inteiro falava do Processo Arminho. Não havia cadáver recente, não havia arma, não havia sequer uma acusação clara. Havia apenas uma mulher desaparecida em 1976, um quadro roubado, uma família alemã que exigia restituição e uma galeria portuguesa acusada de lavar a história até ela brilhar.
O canal público transmitia debates todas as noites. Comentadores gritavam sobre arte, herança, culpa e dinheiro. Nas redes sociais, Clara descobriu que já lhe chamavam “a arquivista da marca”, porque alguém divulgara uma imagem dela ao lado do retrato. A mancha azul no pulso, que sempre tentara esconder, tornara-se prova para uns e superstição para outros.
Inês apareceu no arquivo sem aviso, encharcada pela chuva.
— Tens de sair daqui.
— Também olá para ti.
— Clara, ouve-me. A mulher da fotografia chamava-se Amália Sotto. Era portuguesa. Trabalhou como intérprete para coleccionadores estrangeiros depois da guerra. Desapareceu quando tentou denunciar uma rede de falsificação de proveniências.
Clara sentiu o chão inclinar-se.
— E o que tenho eu a ver com isso?
Inês hesitou. Foi uma hesitação pequena, mas suficiente para partir qualquer confiança.
— A mãe guardou documentos. Antes de morrer, pediu-me para os proteger.
— A mãe? A nossa mãe?
— Amália era tua avó.
O silêncio caiu como uma porta de ferro.
Clara riu, mas o riso não tinha alegria.
— Passaste anos a dizer que não sabias nada da família dela.
— Eu quis poupar-te.
— Não. Quiseste controlar-me.
Inês baixou os olhos. Era a advogada brilhante, a mulher que enfrentava juízes, ministros e agressores em directo, mas diante da irmã mais nova ficava sem defesa.
Nesse momento, Duarte entrou.
— Interrompo?
— Sempre — respondeu Inês.
Os dois trocaram um olhar que não era de desconhecidos. Clara reparou.
— Vocês conhecem-se.
Duarte respirou fundo.
— A doutora Inês tentou impedir a compra da colecção há seis meses.
— Porque a compra era uma fraude — disse Inês. — E porque alguém anda a ameaçar testemunhas.
A palavra ficou suspensa.
Testemunhas.
Naquela noite, Clara recebeu uma chamada de número privado. Do outro lado, uma voz rouca murmurou:
— A tua avó também pensou que podia falar. Acabou sem nome, sem campa e sem netas que soubessem quem ela era.
Clara desligou, tremendo.
Duarte estava à porta do prédio quando ela chegou a casa. Não perguntou se podia entrar. Apenas lhe entregou uma pen drive.
— Se eu desaparecer, dê isto à sua irmã.
— Porque havia de desaparecer?
— Porque fui contratado para vender uma mentira. E porque comecei tarde demais a querer contar a verdade.
Clara devia ter fechado a porta. Devia ter chamado Inês. Devia ter feito qualquer coisa sensata.
Em vez disso, deixou-o entrar.
E, quando a tempestade fez falhar a luz, Duarte contou-lhe que o pai dele fora o perito que, em 1998, certificara falsamente a origem do quadro. Um homem morto de AVC, celebrado como autoridade, enterrado com medalhas e pecados.
— Estou a tentar corrigir o que ele fez — disse Duarte.
— Ou a salvar o teu apelido?
— As duas coisas podem ser verdade.
Clara quis odiá-lo. Mas a culpa dele não era simples, e a raiva dela também não.
Quando os lábios dele tocaram os seus, ela sentiu que estava a beijar o inimigo, a prova e a queda ao mesmo tempo.
Na manhã seguinte, a pen drive tinha desaparecido.