Clara Valente conhecia a Galeria Arco Norte melhor do que conhecia a própria casa. Sabia que o elevador rangia sempre entre o terceiro e o quarto piso, que o director financeiro escondia cigarros atrás do busto de mármore no corredor, e que no arquivo subterrâneo havia uma gaveta que ninguém abria desde 1998.
Era ali que trabalhava: sem janelas, sem aplausos, entre inventários de obras desaparecidas, seguros milionários e etiquetas escritas por mãos mortas. Clara era a mulher que confirmava datas, proveniências e assinaturas. Invisível, indispensável e mal paga.
Na manhã em que tudo começou, Lisboa acordou debaixo de chuva e sirenes. À porta da galeria, jornalistas esperavam por Duarte Lemos, o novo director executivo, recém-chegado de Bruxelas, rosto de capa de revista e sorriso demasiado treinado. O tipo de homem que fazia as pessoas ajeitarem a postura antes de falar.
— Quero todos os relatórios da colecção Hohenberg na minha secretária até ao meio-dia — disse ele, ao entrar no arquivo sem pedir licença.
Clara levantou os olhos do computador.
— Bom dia também resulta.
Duarte parou. Não estava habituado a ser contrariado, muito menos por alguém com camisola de lã, cabelo preso à pressa e manchas de tinta nos dedos.
— Bom dia. Relatórios, por favor.
— Alguns documentos estão incompletos. A colecção tem lacunas.
— Todas as colecções têm lacunas.
— Não lacunas com nomes apagados a lâmina.
Foi a primeira vez que Duarte perdeu o sorriso.
A colecção Hohenberg seria apresentada naquela noite: pinturas resgatadas de uma mansão em Berlim, incluindo o retrato de uma mulher com uma estola de arminho azul, atribuído a um pintor desaparecido durante a guerra. A peça valia o suficiente para comprar metade da Avenida da Liberdade.
Quando Clara foi buscar o último dossiê, encontrou a gaveta de 1998 entreaberta. Lá dentro havia uma fotografia antiga: uma jovem de vestido preto, à frente do quadro do arminho azul. No verso, uma frase escrita em português: “Ela não foi dona. Foi vítima.”
E, por baixo da frase, uma marca: um pequeno círculo azul, igual a uma mancha de nascença que Clara tinha no pulso.
O telemóvel vibrou. Era uma mensagem da irmã, Inês, advogada conhecida por defender mulheres em processos impossíveis:
“Preciso falar contigo. A galeria está metida num caso antigo. Não confies no Duarte.”
Clara voltou a olhar para a fotografia. A mulher retratada parecia encará-la através do tempo.
Quando subiu ao salão principal, as luzes estavam a ser testadas, os copos alinhados, os patrocinadores a chegar. Duarte aproximou-se dela junto ao quadro.
— Encontrou alguma coisa?
Clara fechou o dossiê contra o peito.
— Talvez.
— Então diga-me.
— Ainda não sei se é verdade.
Ele baixou a voz.
— Nesta casa, a verdade tem horário. Se aparecer antes da inauguração, estraga negócios. Se aparecer depois, chama-se escândalo.
Clara percebeu naquele instante que o homem mais desejado da galeria podia ser também o mais perigoso.
E, ainda assim, quando Duarte lhe tocou de leve no pulso para a impedir de se afastar, a marca azul ardeu como se tivesse acordado.