Na manhã seguinte, a Alva & Mar era um incêndio com carpete cinzenta. O especial televisivo exibira documentos, entrevistas anónimas e uma frase repetida até à exaustão: “Quem lucra com a memória roubada?” As acções da empresa caíam, os clientes ligavam, os jornalistas ocupavam a entrada.
Augusto Meneses convocou Leonor.
— Preciso que fale à imprensa. Diga que Rafael Sotto falsificou o relatório para valorizar a própria investigação.
Leonor olhou para ele como se o visse pela primeira vez. O cabelo impecável, os botões de punho antigos, a calma construída sobre medo alheio.
— Tem provas disso?
— Tenho a sua lealdade.
— Isso não é prova. É chantagem com verniz.
Augusto aproximou-se.
— Menina Vale, eu conheci o seu pai quando ele não tinha dinheiro para pagar a renda. Fui eu que lhe dei trabalho. Fui eu que paguei os seus estudos quando a bolsa falhou. Não confunda gratidão com fraqueza.
Leonor sentiu a infância inteira bater-lhe à porta: a mãe a engolir dívidas, o pai a evitar perguntas, envelopes sem remetente que chegavam antes das propinas. A sua carreira, tão limpa, talvez tivesse sido comprada com uma sujidade anterior.
Saiu sem responder e foi ao arquivo morto com Rafael e Inês Câmara. Sim, Inês. A chefe de comunicação, até então símbolo de oportunismo, fechou a porta atrás de si e tirou os saltos altos.
— Se vamos abrir cadáveres, faço-o confortável — disse.
Leonor desconfiou. — Está connosco?
— Estou comigo. E estou farta de homens velhos que me pedem para sorrir enquanto escondo crimes.
A pen de Célia continha uma lista de obras seguradas pela Alva & Mar nos últimos trinta anos, todas com proveniência duvidosa, todas aprovadas por Meneses. Mas havia um ficheiro protegido por palavra-passe: “AMELIA_VALE_FINAL”.
Rafael tentou datas, nomes de galerias, combinações. Nada. Leonor, sem saber porquê, escreveu a palavra “primeiro”. O ficheiro abriu.
Dentro havia um vídeo digitalizado de uma cassete antiga. Célia aparecia mais nova, numa sala escura.
“Se estão a ver isto, é porque falhei em proteger a verdade. Amélia Vale não desapareceu em Berlim. Chegou a Lisboa grávida, com o Quadro Azul escondido. Pediu ajuda ao fundador da Alva & Mar. Ele vendeu a pintura, trocou-a por uma cópia e entregou Amélia à polícia política como estrangeira suspeita. A criança nasceu em segredo. A linhagem dela carrega uma marca no pulso. Meneses sabe.”
Leonor deixou de respirar.
— A criança... — murmurou Rafael.
— Era a minha avó — concluiu Leonor, com uma certeza terrível.
Inês já chorava, mas continuava prática.
— Temos de levar isto ao Ministério Público.
A porta do arquivo abriu-se. Dois seguranças entraram. Atrás deles, Augusto Meneses.
— Não têm de levar nada a lado nenhum.
Rafael colocou-se à frente de Leonor. Ela odiou e adorou o gesto.
— Sai da frente — disse ela baixo. — Hoje as senhoras vão primeiro.
E, antes que Meneses percebesse, Leonor transmitiu o vídeo em directo para a conta institucional da Alva & Mar, usando o acesso de crise que apenas ela e Inês possuíam.
Durante dez segundos, o mundo ficou suspenso.
Depois, todos os telefones começaram a tocar.