Às nove da noite, o edifício da Alva & Mar parecia outro: corredores vazios, luzes automáticas, o Tejo negro nas janelas. Leonor encontrou Rafael na sala dos arquivos, sentado no chão entre caixas de sinistros antigos.
— Está a invadir propriedade interna — disse ela.
— Trabalho aqui.
— Ainda.
Ele fechou a caixa com cuidado.
— Veio despedir-me pessoalmente?
— Vim perguntar porque é que a fotografia que entregou tem uma mulher com a minha marca de nascença.
Rafael deixou de brincar. Pegou no tablet, ampliou a imagem e mostrou-lhe a rapariga. O sinal no pulso parecia uma pequena folha queimada.
— Não reparei — confessou.
— Mentira.
— Reparei, mas não sabia o que significava.
Leonor odiava quando alguém escolhia a verdade tarde demais. Ainda assim, sentou-se frente a ele.
Rafael explicou que procurava o Quadro Azul havia três anos, desde que a avó, antes de morrer, lhe entregara uma carta escrita por uma conservadora portuguesa desaparecida em 1943. A mulher chamava-se Amélia Vale.
Leonor gelou.
— Vale?
— Era curadora numa pequena galeria em Berlim. Salvou várias obras, falsificando registos para as devolver aos donos. Depois desapareceu. A carta dizia que uma pintura tinha sido enviada para Lisboa, escondida numa caixa de tecidos. Nunca mais se soube dela.
— A minha família nunca falou de nenhuma Amélia.
— Talvez porque alguém ganhou muito dinheiro com o silêncio.
Leonor levantou-se.
— Tenha cuidado. Eu posso proteger a empresa ou destruí-lo em tribunal.
Rafael também se levantou, mas não recuou.
— E eu posso ficar calado ou provar que a empresa que a senhora defende está a vender uma mentira.
Estavam demasiado perto. Leonor sentiu o cheiro a papel antigo e chuva no casaco dele. A tensão tinha a forma absurda de um beijo que nenhum dos dois se atreveu a dar.
O telemóvel dela vibrou. Uma mensagem de número oculto: “Se quer saber quem é a rapariga da fotografia, venha sozinha ao miradouro das Necessidades. Meia-noite. Não confie no perito.”
Leonor mostrou a mensagem a Rafael.
— Diz para eu não confiar em si.
— Então não confie. Mas também não vá sozinha.
Ela devia ter recusado. Em vez disso, pegou na mala.
— Se me estiver a manipular, eu enterro-o.
— Justo — disse ele. — Se me estiver a usar para salvar Meneses, eu deixo-a enterrar-me só depois de descobrir a verdade.
No miradouro, a cidade parecia uma cena montada para uma confissão. Uma mulher de cabelo branco esperava junto ao muro. Tinha um casaco vermelho e mãos trémulas.
— A menina é igual a ela — murmurou, olhando para Leonor.
— Quem é a senhora?
— Fui secretária de Augusto Meneses durante vinte e oito anos. Chamo-me Célia. E amanhã vou testemunhar.
Antes que Leonor perguntasse onde, um motociclo subiu o passeio, faróis apagados. Rafael puxou-a para trás. O disparo acertou no muro, a centímetros da cabeça de Célia.
A velha caiu, não por ferida, mas por pânico. No chão, apertava uma pen escondida dentro de um terço.
— A sentença não é na televisão — sussurrou Célia. — É nos arquivos da vossa empresa.