Três dias depois, Mara acordou. Não se lembrava da queda, mas lembrava-se de ter visto Leonor Sá entrar numa sala reservada com um vereador e um consultor externo chamado Álvaro Mendo. Lembrava-se também de ter fotografado uma folha com nomes marcados antes de fugir para o elevador.
A fotografia, porém, desaparecera do telemóvel.
Inês sugeriu procurar na cópia de segurança automática. Duarte levou-as a uma pequena sociedade de advogados em Alfama, pertencente a uma antiga professora sua, Madalena Canto, mulher de cabelo prateado e paciência zero para cobardes. Madalena ouviu tudo, pediu provas e, ao ver ERMINE_7, soltou apenas uma frase:
— Isto não é uma denúncia. É uma guerra.
A estratégia era simples e suicida: requerer uma providência urgente para impedir a entrega do sistema aos municípios, anexando provas suficientes para obrigar o tribunal a ouvir testemunhas. Se falhassem, seriam processados por violação de segredo industrial. Se ganhassem, a Aurum Data cairia sob investigação criminal.
Na véspera da audiência, Inês recebeu uma mensagem de número desconhecido: “A tua mãe entra no comboio das 18h42. Há acidentes que parecem acaso.”
Ela deixou cair o telemóvel. Duarte estava ao seu lado e leu a ameaça antes que ela a pudesse esconder. Pela primeira vez, perdeu o controlo.
— Acabou. Vou entregar-me e negociar.
— Entregar-se por uma assinatura falsificada?
— Se isso a proteger, sim.
Inês aproximou-se dele, furiosa.
— Não me transforme numa desculpa nobre. Eu vivi demasiado tempo a ser protegida por silêncios. Não quero mais.
A discussão ficou suspensa entre ambos, quente e perigosa. Duarte tocou-lhe no rosto como se pedisse autorização a uma parte de si próprio que já não obedecia. Inês devia ter recuado. Não recuou. O beijo aconteceu sem música, sem promessa, entre pilhas de processos e medo real. Foi breve, intenso, e acabou com ambos a perceberem que tinham acabado de criar mais uma vulnerabilidade.
Na audiência, a sala era pequena, sem jornalistas, sem espectáculo. Leonor Sá compareceu com três advogados e a expressão ofendida de quem se considera acima da suspeita. Álvaro Mendo não apareceu.
Madalena apresentou o ficheiro ERMINE_7. A defesa alegou manipulação. Apresentou registos que colocavam Duarte como validador dos anexos alterados. Duarte levantou-se e declarou que a assinatura fora falsificada.
— Prove — disse o advogado da Aurum.
E foi aí que tudo pareceu ruir. O perito do tribunal confirmou que a assinatura digital tinha sido emitida a partir do token profissional de Duarte. Tecnicamente, era válida.
Leonor sorriu pela primeira vez.
Então Inês pediu a palavra. A juíza hesitou, mas Madalena insistiu: Inês era testemunha técnica.
Com as mãos frias, Inês explicou o que ninguém na administração sabia que ela sabia: os tokens da Aurum registavam não apenas hora e chave, mas também microvariações de pressão biométrica quando usados em terminais internos. Uma funcionalidade experimental, nunca activada oficialmente, mas presente nos logs antigos. Duarte assinava sempre com a mão direita e uma pressão irregular no primeiro segundo devido a uma lesão antiga no pulso. A validação contestada tinha sido feita com padrão estável e mão esquerda.
— E sabe quem usa o terminal da sala reservada com autenticação de mão esquerda? — perguntou Madalena.
Inês entregou o último relatório.
A juíza leu. O rosto dela não mudou, mas a sala inteira percebeu o abalo.
Leonor Sá.