Na manhã seguinte, a notícia correu pelos telemóveis antes de chegar aos e-mails oficiais: Mara fora encontrada inconsciente numa estação de metro, caída na escada de serviço. A versão interna dizia “acidente”. Ninguém no sétimo piso acreditou, mas todos continuaram a beber café como se acreditar fosse uma escolha de carreira.
Duarte apareceu à porta do arquivo às oito e dezassete. Não bateu. Fechou a porta atrás de si.
— Tem uma cópia? — perguntou.
Inês não respondeu logo. Olhou para a câmara no canto do tecto.
— Aqui, até as paredes têm ouvidos.
Ele pousou um pequeno dispositivo na secretária; uma luz azul acendeu-se. — Durante três minutos, não.
Ela devia ter desconfiado. Devia ter perguntado onde aprendera aquilo. Em vez disso, mostrou-lhe o ficheiro ERMINE_7. Duarte leu em silêncio, e a cada página parecia ficar menos director jurídico e mais homem acuado.
— Isto chega para abrir uma investigação externa — disse ele.
— Também chega para nos varrerem do mapa.
Duarte fitou-a. — Por que está disposta a arriscar?
Inês pensou na mãe, professora reformada, que fora chamada à polícia no ano anterior por participar numa vigília contra despejos. Pensou no medo ridículo que se instalara em casa depois disso: mensagens apagadas, conversas sussurradas, a sensação de que cada gesto simples podia ficar registado em algum lado. Pensou em Mara, com vinte e três anos, marcada antes de saber defender-se.
— Porque alguém decidiu que pessoas como nós são dados descartáveis.
Duarte não sorriu, mas algo nele amoleceu.
Nesse mesmo dia, convocaram uma reunião geral. A administradora executiva, Leonor Sá, subiu ao palco do auditório com um vestido branco impecável e uma voz treinada para tranquilizar accionistas. Anunciou que a Aurum Data estava a ser alvo de uma campanha difamatória. Falou de transparência, de ataques à inovação nacional e de uma auditoria interna conduzida “com todo o rigor”.
Depois, olhou directamente para Inês.
— Alguns colaboradores confundem acesso com autoridade. Recordo que a violação de confidencialidade é crime.
Foi um aviso público embrulhado em linguagem corporativa. Inês sentiu dezenas de olhares sobre si. Mas o verdadeiro golpe veio ao fim da tarde: o seu cartão deixou de abrir portas. A sua conta foi suspensa. Na recepção, dois seguranças esperavam para a acompanhar à rua.
Duarte interceptou-os no átrio.
— A senhora Valente vai comigo — disse.
— Ordem da administração — respondeu um segurança.
— E a minha ordem é jurídica. Querem escolher qual delas explica melhor isto amanhã a um juiz?
Ninguém se mexeu. Inês nunca tinha visto uma ameaça soar tão limpa.
Saíram juntos para a chuva. No passeio, sem câmaras por perto, Duarte entregou-lhe uma pen.
— Não confie em mim por simpatia — disse. — Confie apenas no facto de eu também estar preso nisto.
— Preso como?
Ele respirou fundo. — A assinatura que validou o contrato-piloto é minha. Falsificada, mas minha. Se isto rebentar mal, eu sou o culpado perfeito.
Inês olhou para a pen na mão. Dentro estava uma promessa ou uma armadilha. E, pela primeira vez em anos, percebeu que o seu coração não sabia distinguir perigo de desejo.