Inês foi ao lar onde a mãe vivia desde o AVC. Helena Valente raramente falava com clareza; as palavras saíam como fragmentos de uma casa que ardera por dentro. Mas quando Inês lhe mostrou a fotografia, os olhos da mãe abriram-se com uma lucidez assustadora.
— A raposa... — sussurrou Helena. — Não era dele.
— De quem era, mãe?
Helena agarrou-lhe o pulso.
— Eles compram silêncio com molduras bonitas.
Depois calou-se, como se alguém a tivesse desligado.
Na manhã seguinte, Inês foi chamada ao 20.º andar. A sala de reuniões tinha uma parede inteira de vidro e uma vista magnífica sobre Lisboa, quase obscena para quem estava prestes a ser ameaçado.
À cabeceira estava Clara Monteiro, presidente da empresa, conhecida por ter reconstruído a Lusitânia & Norte após uma crise financeira e por aparecer em capas de revistas com frases sobre liderança feminina. Ao seu lado, Tomás.
— Inês — disse Clara, com doçura medida —, detectámos acessos invulgares a ficheiros sensíveis. Quer explicar?
— Sou auditora. Aceder a ficheiros é parte da função.
— Aceder, sim. Copiar, não.
Tomás olhou para ela, surpreendido. Ou a representar surpresa.
Inês sentiu o estômago apertar. Não copiara nada, mas sabia como era fácil fabricar provas contra alguém que trabalhava dentro do sistema.
— Se há uma irregularidade, devo investigá-la.
Clara inclinou-se para a frente.
— Há irregularidades que não são irregularidades. São estratégias. E há pessoas que confundem moralidade com suicídio profissional.
Quando saiu, Tomás seguiu-a até às escadas de emergência.
— Inês, espera.
— Para quê? Para me dizeres que assinaste por engano a compra de um quadro ligado a um homicídio?
Ele ficou pálido.
— Não assinei essa compra. A minha assinatura foi clonada.
— Que conveniente.
— Eu fui contratado para descobrir quem usa a empresa para lavar activos. Mas antes de chegar a provas, alguém colocou o meu nome nos documentos.
— E esperas que eu acredite?
Tomás tirou do bolso uma pequena pen, sem logótipo.
— Não. Espero que confirmes. Está aqui metade do que consegui reunir. A outra metade está desaparecida, tal como a mulher que ia testemunhar.
Inês não pegou logo na pen.
— Que mulher?
Tomás baixou a voz.
— A antiga curadora da Galeria Tejo. Chamava-se Helena Valente.
O mundo inclinou-se. Inês encostou a mão à parede fria.
— A minha mãe?
Antes que Tomás respondesse, a luz das escadas apagou-se. Ouviram passos acima, lentos, deliberados. Inês guardou a pen no bolso e os dois desceram em silêncio, degrau a degrau, enquanto uma sombra parava no patamar superior.
Nessa noite, a notícia abriu os telejornais: “Auditora da Lusitânia & Norte suspeita de desvio de dados confidenciais.” A fotografia de Inês surgiu no ecrã, retirada do cartão interno da empresa, sem sorriso, sem defesa.