Inês Valente conhecia todos os sons da Torre Arga: o zumbido das impressoras antes das nove, o tilintar das chávenas no piso executivo, o suspiro colectivo quando o director financeiro entrava numa sala. Trabalhava há cinco anos na Lusitânia & Norte, uma consultora de reputação impecável, e aprendera a ser invisível. Era auditora interna, daquelas pessoas que aparecem no organigrama sem fotografia e que só são lembradas quando alguém precisa de assinar uma folha.
Naquela segunda-feira, o elevador parou entre o 16.º e o 17.º andar.
— Outra vez? — murmurou ela, apertando a pasta contra o peito.
— Depende. Se for sabotagem, é a primeira vez. Se for o destino, já estou habituado.
A voz vinha do homem ao seu lado: Tomás Sequeira, recém-nomeado director de estratégia, camisa impecável, olhar de quem sorria antes de decidir se devia confiar. Inês vira-o apenas em reuniões, sempre rodeado de pessoas que o queriam impressionar.
— O destino costuma avariar elevadores? — perguntou ela.
— Só quando precisa que duas pessoas conversem.
Inês teria rido, se o telemóvel não tivesse vibrado naquele instante. Uma mensagem sem remetente apareceu no ecrã: “O relatório de Novembro é falso. Procura a assinatura da raposa.”
O ar dentro do elevador pareceu rarear. Tomás notou a mudança no rosto dela.
— Está tudo bem?
— Trabalho — mentiu.
Quando finalmente as portas se abriram, Inês saiu antes dele. Ao chegar à sua secretária, abriu o arquivo cifrado do relatório de Novembro: uma auditoria a fundos de aquisição de arte corporativa, um programa criado para “diversificar activos e apoiar cultura”. Havia facturas de galerias, transportes, seguros. Tudo limpo demais.
Até encontrar uma imagem digital anexada por engano: um pequeno quadro a óleo, uma raposa branca sobre neve azul, com uma assinatura no canto inferior que não correspondia ao artista indicado. Inês ampliou a imagem. A assinatura era uma letra quase infantil: “M. Vilar”.
O nome gelou-lhe as mãos. Manuel Vilar era o pintor desaparecido há vinte anos, acusado de incendiar o próprio atelier e matar a mulher. O processo fora arquivado por falta de corpo, falta de testemunhas e excesso de rumores. A imprensa chamara-lhe “o artista culpado sem sentença”.
No fim do ficheiro, havia uma autorização de compra assinada por alguém da empresa.
Tomás Sequeira.
Nessa tarde, quando Inês regressou da pausa, encontrou sobre a mesa um envelope castanho. Dentro, apenas uma fotografia antiga: a mãe dela, muito jovem, à porta de uma galeria, ao lado de Manuel Vilar. No verso, escrito à mão: “Ela viu tudo.”