A umidade noturna descia sobre Paraty como um pano úmido, encharcando as paredes de taipa dos casarões e soltando o cheiro doce de podridão que subia do cais. Beatriz Costa caminhava rente às fachadas, o xale preto cobrindo a cabeça e parte do rosto, os pés descalços evitando as poças deixadas pela maré alta. O cheiro vinha mais forte agora, misturado ao sal e ao melaço velho dos engenhos, e ela reconhecia o sinal: o parasita já não se contentava com o capataz.
Ela parou na sombra da varanda do casarão dos Almeida, onde as janelas de madeira rangiam ao vento. Rafael estava ali, como combinado, encostado na ombreira da porta lateral que dava para o beco. A camisa de linho engomado dele refletia a luz fraca do lampião distante; quando ele se moveu para abri-la, o tecido roçou o braço dela e deixou um calor seco que contrastava com a frieza da noite.
— Entre — murmurou ele, voz baixa para não atravessar as ruas estreitas.
Beatriz entrou primeiro, sentindo o piso de madeira rangendo sob seus pés. O interior cheirava a cera e a mofo antigo, mas o odor doce de carne em decomposição seguia infiltrando-se pelas frestas. Ela parou junto à janela gradeada e olhou para o cais. Dois trabalhadores do engenho arrastavam sacos de açúcar; um deles, o mais novo, parou para coçar o antebraço, e na luz do lampião Beatriz viu a pele avermelhada, quase translúcida, com pequenas bolhas que pareciam latejar.
— O capataz já não consegue segurar o chicote direito — disse ela, sem tirar os olhos da rua. — Os dedos dele estão inchados. Amanhã ele vai pedir licença e o coronel vai mandar outro no lugar. O parasita vai precisar de novo hospedeiro.
Rafael fechou a porta. O linho da camisa dele roçou novamente o ombro de Beatriz quando ele se aproximou por trás, não para tocá-la, mas para olhar pela mesma fresta.
— Meu pai acha que é febre de pântano. Mandou trazer quinino do Rio. — Ele hesitou. — Eu falei que ia verificar os alojamentos amanhã. Quero ver com meus próprios olhos.
Beatriz sentiu o fôlego dele na nuca. O contato era mínimo, apenas a borda da manga engomada contra a pele do seu pulso, mas bastava para lembrar que o plano exigia precisão e que qualquer desvio custava tempo. Ela não se afastou.
— Se você for, vai ver as lesões. O cheiro já está no ar. O parasita está passando de um para outro mais rápido do que eu calculei.
Do lado de fora, um peixeiro tropeçou no calçamento. Era o velho Simão, que vendia tainha fresca todas as manhãs. Ele parou, apoiou a cesta no chão e levantou a mão para o rosto. Mesmo à distância, Beatriz distinguiu as manchas escuras na palma, como se algo tivesse roído a carne por dentro. Simão não era capataz nem feitor; era apenas um homem que comprava peixe no mesmo cais onde ela atracava o barco.
O estômago de Beatriz se contraiu, mas sua expressão permaneceu impassível. O parasita havia saltado.
— Rafael — chamou ela, voz baixa —, seu pai vai mandar queimar os alojamentos se souber o que está acontecendo. Você precisa decidir se quer impedir isso ou se vai deixar queimar.
Ele colocou a mão sobre a dela na grade da janela. O linho da manga roçou o antebraço dela de novo, quente e engomado, e ela sentiu o pulso dele acelerado.
— Eu não quero queimar nada. Quero mudar o pagamento, tirar os homens do sol das dez às duas, dar calçado decente. Meu pai vai chamar isso de fraqueza, mas eu vou fazer mesmo assim. — Ele apertou os dedos. — Quero que você veja que eu não sou igual a ele.
Beatriz virou o rosto. A meia-luz mostrava o maxilar tenso de Rafael, a linha de suor na têmpora. Ela sabia que ele falava verdade; o cheiro de podridão que vinha do cais já estava misturado ao suor dele, e isso a fazia calcular o tempo restante. O coronel tinha mais três capatazes. Se o parasita pulasse para Simão, poderia alcançar qualquer um que tocasse o mesmo cesto de peixe.
— Mudar o pagamento não mata o que já está dentro deles — respondeu ela. — E não devolve meu marido.
O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo ranger da madeira e pelo ruído distante de alguém vomitando perto do cais. Beatriz sentiu o tecido da camisa de Rafael roçar seu ombro quando ele se inclinou mais perto.
— Eu sei que você guarda segredos — disse ele. — Eu também guardo. Se eu mudar as coisas aqui, talvez você não precise mais guardá-los.
Ela não respondeu. Em vez disso, observou Simão voltar a carregar a cesta. O peixeiro coçava o pulso agora, e as bolhas pareciam ter crescido desde que ela o vira pela primeira vez. O cheiro doce ficou mais forte por um instante, como se o vento tivesse trazido um sopro direto do corpo infectado.
Do lado de fora, passos se aproximaram. Beatriz reconheceu o andar arrastado de dona Carmem, a vizinha do casebre ao lado do seu. A mulher parou na entrada do beco e olhou para a janela gradeada.
— Beatriz? É você aí dentro com o filho do coronel? — A voz era aguda, carregada de curiosidade e de algo pior: julgamento. — Já faz três noites que você some depois que o sol desce. Seu barco fica amarrado e ninguém te vê no cais. O povo está comentando.
Beatriz soltou a mão de Rafael devagar. O linho roçou seu braço uma última vez antes de ela se afastar da janela.
— Eu vou responder — murmurou para ele. — Fique aqui.
Ela abriu a porta lateral e saiu para o beco. O cheiro de podridão era mais forte agora, misturado ao suor de dona Carmem e ao melaço que pingava de um saco rasgado no chão.
— Boa noite, dona Carmem — disse Beatriz, voz controlada. — O barco precisa de conserto. Eu ando procurando madeira seca.
Dona Carmem estreitou os olhos. Atrás dela, Simão passou carregando a cesta, e Beatriz viu claramente as lesões novas no antebraço dele, vermelhas e úmidas, como se a carne estivesse sendo comida por dentro. O peixeiro tossiu, e uma gota escura caiu no calçamento.
— Madeira seca de noite? — repetiu dona Carmem. — E com o filho do coronel? O coronel já matou seu marido. Não é hora de andar de braço dado com a mesma casa que te destruiu.
Beatriz sentiu o olhar da vizinha percorrer seu rosto, depois descer até as mãos. Ela manteve as palmas viradas para dentro, escondendo as pequenas marcas que o contato com o capataz havia deixado em sua própria pele semanas antes — marcas que ainda não doíam, mas que ela vigiava todas as manhãs.
— Eu sei quem meu marido era — respondeu ela. — E sei o que o coronel fez. Não preciso de lembretes.
Dona Carmem cuspiu no chão.
— O povo fala que tem doença no engenho. Dizem que os homens estão apodrecendo por dentro. Se você anda de noite, talvez seja melhor ficar em casa antes que o cheiro te pegue também.
Simão parou a poucos passos, respirando com dificuldade. As lesões no braço dele brilhavam úmidas à luz do lampião. Beatriz calculou: se o parasita já estava nele, teria chegado pelo contato com o capataz ou com algum utensílio compartilhado no cais. O plano estava escapando do controle.
Ela voltou os olhos para a janela gradeada. Rafael ainda estava lá, a camisa de linho visível na penumbra. Ele a observava, e ela sabia que ele também via as lesões de Simão. O cheiro doce pairava entre todos eles agora, mais forte que o sal.
— Boa noite, dona Carmem — repetiu Beatriz, e entrou de novo no casarão.
Fechou a porta. O linho da camisa de Rafael roçou seu braço quando ele se aproximou, e ela permitiu o contato por mais um segundo antes de se afastar.
— O parasita chegou no peixeiro — disse ela, voz baixa e metódica. — Amanhã ele vai vender peixe com as mãos cheias de feridas. Quem tocar nele vai carregar o mesmo. Seu pai vai mandar queimar os peixes ou os homens. Você ainda quer reformar o pagamento?
Rafael olhou para a rua através da grade. O cheiro de podridão entrava pelas frestas, misturado ao suor e ao linho engomado.
— Eu vou falar com ele amanhã — respondeu. — Mas se o parasita já está fora do engenho, talvez seja tarde para reforma.
Beatriz sentiu o peso da decisão se acomodar no peito, frio e calculado. O cronograma que ela havia traçado — capataz, depois os dois outros feitores, depois o coronel — agora incluía um peixeiro inocente e, possivelmente, quem mais tocasse seu cesto. O caso com Rafael, o roçar do linho, a possibilidade de reforma, tudo isso pesava contra o tempo que restava antes que o cheiro doce chegasse ao casebre dela também.
Do lado de fora, Simão tossiu de novo, e o som ecoou entre os casarões como um aviso. Beatriz ajustou o xale e preparou-se para sair antes que dona Carmem voltasse com mais perguntas. O plano exigia que ela continuasse andando à noite, mesmo que as ausências fossem notadas. O parasita não esperava.
Rafael tocou seu pulso uma última vez, o tecido da manga roçando a pele.
— Eu vou com você até o cais — ofereceu.
Ela aceitou, porque precisava vigiar Simão e porque o contato, por breve que fosse, ainda servia para lembrar que a vingança podia ter aliados inesperados. Caminharam na sombra dos casarões, o cheiro doce seguindo-os como uma respiração constante, enquanto as lesões novas no braço do peixeiro brilhavam úmidas sob a luz que restava.