A noite descia sobre o cais do engenho como um lençol de breu úmido, carregando o rangido constante dos barris de madeira que rolavam sobre as tábuas gastas pelo sal e pelo uso. Beatriz Costa parou à sombra de um poste, ajustando o xale que lhe cobria os ombros magros. O cheiro azedo da cachaça fermentando subia dos porões abertos, misturado ao odor de melaço velho e ao sal do mar que batia devagar contra os pilares. Lanternas penduradas nas cordas do ancoradouro lançavam reflexos trêmulos sobre as águas negras, onde o brilho se esticava em fitas longas e desaparecia sob a quilha de uma canoa amarrada.
O capataz surgiu do armazém, o chapéu de aba larga jogando sombra sobre o rosto marcado. Ele carregava um maço de papéis amassados na mão esquerda e um lampião na direita. “Viúva Costa. Trouxe os barris da troca? O coronel não perdoa demora.”
“Trouxe, senhor.” A voz de Beatriz saiu neutra, sem elevação nem tremor. Ela indicou os três barris que havia rolado até o cais. “Dois de cachaça nova, um de melaço. Como pediu.”
Os carregadores, dois homens de camisa suja, aproximaram-se e começaram a trocar os barris vazios pelos cheios. O rangido da madeira contra a pedra ecoava seco, ritmado, quase como respiração. Beatriz observava cada movimento. Dentro da manga direita, presa por um fio de linho, estava a pequena ampola de vidro escuro que recolhera na grota da enseada. O parasita, ainda vivo em sua forma larval, agitava-se levemente contra o vidro quando aquecido pela pele. Ela esperava o instante exato: quando o capataz se curvasse para verificar o lacre de um barril, ela derramaria uma única gota na água do balde que ele usava para lavar as mãos após o serviço.
Enquanto os homens trabalhavam, o capataz aproximou-se demais. Cheirava a fumo de rolo e suor seco. Beatriz inclinou o corpo, fingindo ajustar a corda de um barril, e deixou cair a gota. A larva caiu invisível na água turva do balde. O capataz mergulhou as mãos sem notar. Ela endireitou-se, o rosto impassível.
Foi então que os passos soaram no caminho de terra batida que descia do engenho. Rafael Mendes apareceu sob o arco de luz da lanterna maior, o colete de linho claro contrastando com a escuridão. Ele parou a poucos passos, a postura ereta, os ombros quadrados num gesto de quieta rebeldia que não combinava com o nome do pai. Seus olhos percorreram o cais, pararam em Beatriz e depois no capataz.
“Capataz, ainda está jogando o vinhoto no riacho que deságua na baía? Os peixes estão boiando barriga para cima desde a semana passada. A senhora Costa pesca ali. O mar não aguenta mais o que o engenho despeja.”
O capataz limpou as mãos na calça, já sem pressa. “O coronel manda como sempre mandou, doutor Rafael. Não é serviço meu mudar isso.”
Beatriz sentiu o olhar de Rafael voltar-se para ela. O contato durou mais que o necessário para uma conversa entre estranhos. Havia reconhecimento ali, algo que atravessava a linha entre a viúva pescadora e o filho do dono do engenho. Ela notou a forma como ele mantinha o queixo erguido, o modo como as mãos descansavam nos bolsos sem tensão, como se desafiasse o próprio sangue. Por um instante ela pensou no marido morto, no modo como o coronel havia mandado queimar as redes e o barco depois do acidente no mangue. Depois pensou em Rafael, na maneira como ele falava de reforma, de leis novas, de gente que não merecia sofrer pelo açúcar. O olhar entre eles carregava um peso que nenhum dos dois nomearia em voz alta.
“Boa noite, dona Beatriz,” disse Rafael, a voz mais baixa agora. “Não esperava encontrá-la aqui.”
“Boa noite, senhor Rafael.” Ela manteve a fala neutra, as mãos quietas ao lado do corpo. “O mar não espera ninguém.”
“Mas o mar está mudando por causa do que corre do engenho. O senhor sabe disso melhor que eu.” Ele deu um passo à frente, o rosto meio iluminado. “Já pensou em falar com meu pai? Ou pelo menos não vir mais a este cais à noite.”
O capataz soltou uma risada curta, sem humor. “A viúva vem porque precisa. Todo mundo precisa do que o engenho dá.”
Beatriz sentiu o cheiro azedo da cachaça subir mais forte quando um dos carregadores abriu a tampa de um barril para verificar o nível. O vapor subiu, doce e fermentado, misturando-se ao sal. Ela observava o capataz de canto de olho. Ele esfregava agora a barriga por baixo da camisa, um movimento pequeno, quase inconsciente. A larva já devia estar se fixando, buscando calor interno.
Rafael continuou, a voz ganhando um tom mais urgente. “Não é só peixe. É gente. Crianças na praia com febre depois que chove e o riacho transborda. A senhora mesma perdeu o marido por causa de uma ordem que veio deste lugar. Não é justo que continue assim.”
Beatriz sustentou o olhar dele por mais um segundo. Havia calor naquele reconhecimento, algo que ia além de palavras sobre poluição ou morte. Ela sentiu o próprio pulso subir, mas não deixou que a voz traísse. “Justiça é coisa que o mar decide, senhor. Eu só venho buscar o que me pagam.”
O capataz deu um passo para trás, encostando na parede do armazém. Sua mão apertava agora o lado direito do abdômen. Um suor fino brilhava na testa apesar da brisa fresca. Ele pigarreou, tentando disfarçar. “Vamos acabar logo com isso. Os barris estão trocados.”
Beatriz viu o momento exato em que a larva começou a agir de verdade. O capataz dobrou ligeiramente o corpo, os olhos semicerrados. Um gemido baixo escapou entre os dentes cerrados, abafado pela mão que ele levou à boca. Rafael, concentrado nela, não percebeu. Beatriz calculou rápido: se o capataz caísse ali, Rafael investigaria. A infestação precisava parecer doença comum por mais algumas horas.
“Preciso voltar para a canoa agora,” disse ela, a voz ainda neutra. “A maré está virando.”
Rafael franziu a testa. “Já? Ainda não terminamos de falar.”
“O mar não espera, como eu disse.” Ela deu um passo para o lado, mantendo distância do capataz. “Obrigada pelo pagamento, senhor.”
O capataz gemeu de novo, desta vez mais alto, e recuou para dentro do armazém, a porta rangendo ao se fechar. Beatriz ouviu o som abafado de algo pesado batendo contra madeira lá dentro. Rafael virou a cabeça na direção do ruído, mas Beatriz já estava descendo os degraus do cais, os pés descalços silenciosos nas tábuas.
“Espere,” chamou Rafael, dando dois passos atrás dela. “Se precisar de ajuda com o que quer que esteja acontecendo aqui… eu não sou meu pai.”
Ela parou, sem se virar completamente. O olhar que lançou por cima do ombro foi breve, mas suficiente para carregar o que não podia dizer: o reconhecimento de que ele carregava sua própria rebeldia, e que ela carregava algo que ele nunca entenderia. O cheiro azedo da cachaça pairava entre eles, misturado agora a algo mais metálico, quase como sangue diluído.
“Boa noite, senhor Rafael,” repetiu ela.
Os passos dele pararam. Beatriz desceu até a canoa, desamarrou a corda com dedos firmes e empurrou a embarcação para a água negra. Enquanto remava para longe do cais, ouviu o gemido abafado do capataz ecoar uma última vez do interior do armazém, seguido do som surdo de um corpo que se arrastava. O reflexo das lanternas dançava na superfície da água atrás dela, quebrando-se em pedaços pequenos que desapareciam na escuridão.
Dentro do armazém, o capataz caíra de joelhos, as mãos apertando o ventre onde algo se movia devagar, metodicamente, começando a devorar. Beatriz não olhou para trás. O plano seguia seu curso, frio e preciso, mesmo que o olhar de Rafael ainda queimasse na memória como a luz das lanternas sobre as águas.