A maré estava no ponto mais baixo da tarde, deixando a grota exposta como uma ferida aberta na costa de Paraty. Beatriz Costa desceu o último trecho de pedras com passos medidos, os pés descalços sentindo cada raspado de craca e cada lâmina úmida de alga que cobria o basalto. O ar cheirava a salmoura metálica, um gosto que subia pela garganta e grudava na língua. Ela carregava na cintura uma bolsa de lona encerada onde cabia uma única jarra de vidro com tampa de cortiça. Nada mais. Nada que pudesse chamar atenção.
O marido morrera havia quatro meses. O escoamento do engenho do Coronel Mendes tinha tingido o rio de um branco leitoso que matava tudo que tocava. João Costa voltara do mar com a pele das mãos e dos antebraços escaldada, os olhos vermelhos, tossindo sangue que cheirava a ferro. Morreu em três dias. O coronel mandara um caixão e uma nota de pêsames escrita por um escrivão. Beatriz não chorara no enterro. Guardara as lágrimas para dentro, transformando-as em lista: o que o engenho usava, onde o escoamento passava, quem vigiava a represa. Agora procurava o instrumento exato.
A grota formava um corredor estreito entre duas paredes de rocha que a maré alta encobria. No refluxo, restavam poças rasas e fendas cheias de sombra. Beatriz parou diante de uma fenda maior, na altura do joelho, onde a água escorria devagar. A pedra ao redor estava marcada por riscos brancos de sal. Ela se ajoelhou, sentindo o frio da água subir pelas saias amarrotadas. Com uma vara de bambu cortada, cutucou o interior da fenda. Algo se moveu lá dentro. Não um caranguejo comum. O movimento era contínuo, como seda arrastando sobre seda. A criatura recuou para o fundo, enterrando-se na areia solta que forrava a rocha.
Beatriz não recuou. Observou o lugar onde a areia tinha sido remexida. A maré vazia deixava o terreno traiçoeiro; uma pedra solta podia rolar e prender o pé. Ela mudou de posição, apoiando o peso no calcanhar esquerdo, e cutucou de novo, mais devagar. Desta vez, a criatura não se enterrou. Em vez disso, saiu rastejando para uma poça adjacente onde um peixe miúdo, talvez uma tainha jovem, havia ficado preso quando a água baixara. O peixe batia o rabo contra as pedras, sem saída.
A criatura era fina, pouco maior que um dedo mindinho, com anéis translúcidos que refletiam um brilho fosforescente fraco contra o basalto molhado. Aproximou-se do peixe por baixo. Não mordeu. Penetrou pela fenda branquial. O peixe deu um salto seco, depois outro. Dentro do corpo, algo se moveu. A barriga inchou levemente. Em menos de um minuto, a carne começou a amolecer. Escamas se soltaram. O olho esquerdo turvou-se e depois escorreu como clara de ovo. O peixe parou de se debater. O corpo inteiro afundou na água da poça, transformando-se em uma massa líquida leitosa que se espalhava devagar, misturando-se ao sal. Restaram apenas ossos finos e uma mancha oleosa na superfície.
Beatriz ficou imóvel. O cheiro metálico da salmoura pareceu mais forte agora, misturado a algo doce e podre que subia da poça. Ela não sentiu nojo. Sentiu o pulso acelerar, não de medo, mas de reconhecimento. Aquilo que entrava vivo e transformava o interior em líquido podia ser dosado. Um corte pequeno, uma agulha, uma ferida já existente. O Coronel Mendes tinha sessenta e dois anos, bebia rum todas as noites e sofria de varizes nas pernas. Uma ferida aberta seria suficiente. Ela visualizou o momento: a introdução do parasita, a espera, a liquefação interna controlada para não matar rápido demais. Tempo para que o filho, o doutor Mendes, visse o pai apodrecer por dentro sem conseguir explicar. Tempo para o engenho parar.
Ela tirou da bolsa um pedaço de pano encerado e uma pinça feita de concha de búzio. Trabalhou devagar. A criatura ainda estava na poça, movendo-se entre os ossos do peixe. Com a pinça, prendeu-a logo atrás da cabeça, sentindo a resistência macia do corpo. Não apertou forte o bastante para esmagar. Colocou-a dentro da jarra que já continha dois dedos de água do mar. A criatura nadou em círculo uma vez, depois se enrolou no fundo. Beatriz fechou a tampa, verificou o vedamento com o polegar e guardou a jarra na bolsa, apertando o cordão contra o quadril.
A dor pela morte de João não tinha sumido. Tinha sido comprimida, transformada em sequência de ações: encontrar o parasita, transportar vivo, descobrir o modo de introdução, aplicar. Cada passo era uma linha reta. Não havia espaço para raiva solta. Raiva matava rápido e chamava atenção. Cálculo matava devagar e parecia doença.
O basalto estava mais escuro agora. A água nas poças subia quase imperceptivelmente. Beatriz sentiu a primeira onda pequena lamber o tornozelo. A maré começava a voltar. Ela se levantou, testando o equilíbrio nas pedras escorregadias. A bolsa batia contra a coxa direita. Deu dois passos em direção à saída da grota quando ouviu vozes.
Eram dois pescadores da praia do Jabaquara, falando alto sobre a rede rasgada e o preço do pescado na feira de amanhã. As vozes ecoavam entre as paredes da grota, ainda distantes, mas se aproximando. Beatriz calculou o tempo. Eles viriam pela mesma trilha que ela usara. Não havia outro caminho sem escalar a parede norte, e a maré já cobria o ponto mais baixo. Ela se moveu para um nicho lateral onde uma pedra maior criava sombra. Ajarra sob a saia, pressionada contra a pele da coxa pela pressão do pano. A água subia até os joelhos agora. Ela ficou parada, respirando pelo nariz, o gosto metálico da salmoura misturado ao suor.
Os passos dos homens ecoaram mais perto. Um deles riu de algo que o outro disse sobre o filho do Coronel Mendes, que andava perguntando de peixes estranhos para um estudo. Beatriz não moveu um músculo. A jarra estava quente contra a perna. A criatura dentro dela se mexeu uma vez, batendo levemente contra o vidro. O som foi abafado pelo tecido da saia e pelo barulho da água subindo.
Os pescadores passaram a menos de dez metros. Um deles cuspiu na água. O cuspe boiou por um instante antes de afundar. Eles não olharam para o nicho. Seguiram em frente, falando ainda do preço do pescado. Quando as vozes diminuíram, Beatriz esperou mais trinta respirações. A água já batia na cintura. Ela saiu do nicho, subiu pela parede usando as mãos para apoio, sentindo as cracas raspar as palmas. No alto da grota, a trilha de terra firme esperava. A bolsa ainda apertada contra o corpo. A jarra intacta.
A luz do fim de tarde batia agora nas pedras secas acima da linha da maré. Beatriz parou um instante, sentindo o vento frio secar a saia molhada. Pensou no Coronel Mendes sentado na varanda do engenho, bebendo rum, as pernas inchadas. Pensou no filho dele, o homem que chamavam de doutor, que às vezes descia à praia para olhar o mar com um caderno. Não pensou em nada além do próximo passo: manter o parasita vivo até encontrar o modo exato de usá-lo. A maré subia atrás dela, cobrindo a poça onde restavam apenas ossos de peixe. Ela seguiu pela trilha em direção à vila, o peso da jarra batendo ritmado contra a coxa a cada passo.