A umidade noturna de Salvador envolvia a Feira de Acarajé como um segundo couro, carregada de sal do mar e do cheiro acre do dendê quente que borbulhava nas panelas de ferro fundido. Luzes neon em azul-celeste e âmbar dourado pendiam das tendas improvisadas, misturando-se a hologramas flutuantes que anunciavam acarajés geneticamente otimizados e vatapá sintético enriquecido com Axé-mod. Iara Mendes sentiu o formigamento subir pelas pontas dos dedos enquanto caminhava ao lado de Thiago, a pele dela reagindo ao ambiente como se o próprio ar carregasse fragmentos de sua linhagem adormecida. O casaco bio-adaptável colava-se ao corpo, mas sob a manga esquerda as marcas ancestrais pulsavam, traços sutis de escamas iridescentes que vinham e iam com o ritmo da respiração.
Thiago mantinha o passo sincronizado, o ombro roçando o dela em um contato que carregava o peso silencioso das noites anteriores no Terreiro de Oxum. “Ele disse que os dados do gene orixá estão no drive principal”, murmurou ele, voz rouca por causa da poeira de mandioca que pairava no ar. “Se conseguirmos isso, podemos mapear a reversão estável antes que a NeoOrixá roube o resto da nossa herança.”
Iara assentiu, o coração apertado de esperança e medo. Desde o despertar no Lavagem, quando a água do mar tinha ativado as primeiras transformações, ela carregava a culpa de ter trabalhado antes para corporações que agora caçavam sua própria gente. “A gente não pode confiar cegamente, Thiago. Mas sem esses dados… nossa forma fica instável. Eu sinto isso toda vez que tento segurar a mudança.”
Eles pararam diante de uma tenda maior, protegida por cortinas de luz holográfica que simulavam folhas de palmeira. O ancião esperava sentado em um banco de madeira entalhada com símbolos de Oxóssi, o rosto marcado por rugas profundas que contrastavam com os implantes sutis de bio-interface nas têmporas. Seu nome era Zé de Nanã, ou assim ele se apresentara nos contatos criptografados. Vestia um jaleco ritualístico sobre roupa comum, o colar de contas azuis e brancas brilhando sob a luz neon.
“Filhos”, saudou ele, voz grave e cálida como o azeite de dendê fresco. “Sentem. O acarajé está saindo agora. Vamos falar de linhagem enquanto comemos.”
Iara sentou-se primeiro, olhos atentos aos movimentos das mãos dele. Thiago permaneceu de pé um segundo a mais, verificando os arredores com o olhar treinado de quem já tinha fugido de drones corporativos. O cheiro do acarajé recém-frito invadiu as narinas — óleo de palma misturado com a nota artificial de mandioca modificada para liberar proteínas que supostamente fortaleciam a conexão com os orixás. Zé de Nanã empurrou dois pratos na direção deles.
“Os dados que vocês pediram”, continuou o ancião, deslizando um pequeno drive de cristal sobre a mesa. “Extraídos de amostras preservadas do candomblé antigo. Pode ajudar a estabilizar a reversão das formas. Mas tem um preço, como tudo nessa Salvador de 2077.”
Thiago pegou o drive, girando-o entre os dedos. “Qual o preço, Zé?”
O ancião sorriu, mas os olhos não acompanharam o gesto. “Lealdade. A NeoOrixá oferece proteção. Vocês dois são valiosos demais para ficarem correndo por becos. Entreguem os drives que já têm e juntem-se a nós. O Axé pode ser compartilhado… sob controle.”
O ar pareceu engrossar. Iara sentiu o estômago revirar. A menção à NeoOrixá soou como uma lâmina fria. Ela trocou um olhar rápido com Thiago, vendo nele a mesma tensão que apertava seu próprio peito. “Você disse que era do terreiro”, falou ela, voz baixa mas firme. “Que tinha perdido parentes para a biopirataria. Que queria redimir o que restava da nossa comunidade.”
Zé de Nanã inclinou a cabeça. “E ainda quero. Mas a redenção vem com poder real, não com instintos selvagens que nos deixam vulneráveis. A corporação entende o Axé melhor que vocês dois novatos.”
Thiago ergueu-se devagar, o corpo já meio inclinado para a saída. “Isso é traição. A gente confiou em você.”
O ancião ativou algo no pulso — um pequeno implante que emitiu um pulso quase inaudível. Iara sentiu o golpe primeiro: uma onda neural que varreu sua espinha, fazendo as marcas do Axé arderem como fogo. Sua pele começou a piscar, humana por um segundo, depois coberta de uma camada fina de penas iridescentes que pertenciam à forma de Iansã, depois de volta à carne nua e vulnerável. A dor era surda, profunda, como se algo dentro dela estivesse sendo comprimido.
“Neural dampener”, explicou Zé com voz agora fria. “Projetado especificamente para linhagens como a de vocês. Temporário, mas suficiente.”
Thiago cambaleou, uma mão no peito, a forma dele tentando uma reversão parcial — garras curtas surgindo nas pontas dos dedos antes de recuarem, deixando marcas de sangue. “Iara… corre…”
O scramble explodiu. Dois capangas de jaleco idêntico ao de Zé surgiram dos lados da tenda, armas de pulso energizadas apontadas. Iara reagiu por instinto bruto, sem a polidez das formas treinadas no terreiro. Ela empurrou a mesa, derrubando os pratos de acarajé, o óleo quente espirrando. Com um movimento largo, ela puxou Thiago para trás de si, o corpo dele apoiando-se no seu ombro enquanto a forma dele fraquejava. A pele de ambos cintilava sob as luzes neon — fragmentos de escama, pelo, pena — uma dança caótica que doía mais a cada oscilação.
“Você nos vendeu”, sibilou ela para Zé, a voz entrecortada pela dor. “Depois de tudo que falamos sobre comunidade… sobre Oxum nos protegendo.”
Zé deu de ombros, já recuando. “A comunidade precisa de estrutura. Não de sonhadores que acordam poderes e não sabem controlá-los.”
Iara sentiu Thiago tremer contra suas costas. Ela o escudou com o próprio corpo, uma mão na nuca dele, sentindo o calor da pele que mudava de temperatura a cada piscar. “Segura em mim”, sussurrou, o subtexto de lealdade agora endurecido em algo mais afiado, mais cauteloso. “A gente sai disso juntos. Eu não te deixo pra trás de novo.”
Eles avançaram em um tropeço coordenado. Iara chutou o joelho de um capanga, o movimento cru, sem a graça da forma completa, mas suficiente para desequilibrá-lo. Thiago, mesmo debilitado, agarrou o drive principal da mesa e mais dois que estavam ao lado de Zé — drives que o ancião tinha deixado expostos na pressa da traição. O material cristalino queimou a palma da mão dele, mas ele não soltou.
O dampener pulsava mais forte. As formas deles ficaram presas em um meio-termo doloroso: Iara com um braço parcialmente alongado, dedos terminando em garras curtas que rasgavam o ar; Thiago com manchas de pele que pareciam casca de árvore, respirando com dificuldade. Eles derraparam para fora da tenda, esbarrando em clientes que gritavam e se afastavam. O cheiro de dendê queimado misturava-se agora ao ozônio das armas descarregadas.
Corredores laterais engoliram-nos. Becos estreitos onde as luzes neon mal chegavam, apenas reflexos distorcidos nas poças de água da chuva recente. Iara arrastava Thiago, o peso dele maior a cada passo, mas ela não soltava. “Foca na respiração”, dizia ela, voz tensa de esforço e de uma ternura que surpreendia até a si mesma. “A gente não precisa da forma perfeita agora. Só… sobreviver.”
Thiago tossiu, a pele do pescoço cintilando entre humano e algo felino. “Eu duvidei de você depois do terreiro… achei que você ia nos entregar pra NeoOrixá por causa do seu passado. Mas você tá me protegendo agora. Por quê?”
“Porque a gente é o que resta”, respondeu ela, simples, enquanto viravam uma esquina. “E eu tô cansada de perder gente. De perder a mim mesma.”
O dampener começou a perder força — ou talvez o corpo deles estivesse aprendendo a lutar contra ele por instinto puro. As reversões parciais ficaram mais controladas: Iara usou uma garra para cortar uma rede de hologramas que bloqueava o caminho, Thiago apoiou-se em uma parede e sentiu o cheiro dos perseguidores antes de ouvi-los. Eles não tinham mais a precisão das formas polidas, mas tinham o cheiro do dendê, o calor da multidão distante, o instinto de quem já foi caçado.
No fim do beco, um drone de vigilância pairava baixo. Iara o derrubou com um golpe bruto do ombro, o aparelho explodindo em faíscas que iluminaram suas peles trêmulas por um instante. Eles pararam para recuperar o fôlego, encostados um no outro. A lealdade entre eles não era mais cega; era algo temperado, quase doloroso de tão real.
“Os drives estão corrompidos em parte”, murmurou Thiago, verificando o cristal com dedos que ainda tremiam. “Mas tem fragmentos bons. A gente pode trabalhar com isso.”
Iara assentiu, limpando suor da testa dele com o polegar. “Então a gente segue. Não pro terreiro — eles sabem. Vamos pro centro histórico. Pelourinho ainda tem esconderijos que os ancestrais deixaram.”
Do lado de fora do beco, o som de botas pesadas e motores de drones aproximava-se. Vozes corporativas ecoavam: “Alvo Mendes e Silva localizados na última posição conhecida. Converjam para o quadrante da feira.”
Iara puxou Thiago para a escuridão de outra viela, o corpo dele ainda apoiado no seu. A pele deles cintilava fracamente sob a luz de um poste quebrado — reversão instável, mas viva. A esperança era tênue, mas redentora: eles tinham os dados, mesmo corrompidos, e tinham um ao outro. O caminho até o Pelourinho seria perigoso, mas era o único que restava.