A Avenida Boa Viagem se estendia larga sob o crepúsculo, o asfalto ainda úmido da chuva fina que caíra mais cedo, refletindo os letreiros de neon dos hotéis em tons de azul e rosa que piscavam intermitentes. Thiago Barros caminhava devagar pela calçada, o cheiro de sal do mar misturando-se aos escapamentos dos carros que passavam em fila, o ronco dos motores abafando por instantes o som distante das ondas quebrando na praia. Ele apertava o celular na mão, a tela mostrando o gráfico do token em alta, as linhas verdes subindo como uma promessa que ele mal conseguia acreditar ter construído. O algoritmo estava salvo em dois lugares: no laptop que carregava na mochila e em uma cópia criptografada que só ele acessava. Os patrocínios novos, aqueles que tinham chegado depois da previsão que enriquecera o Náutico por algumas horas, precisavam ser protegidos agora. Ele pensou no clube, no Ilha do Retiro lotado na noite anterior, e sentiu o peso de ter transformado números em dinheiro vivo que agora escorria entre dedos alheios.
Ele parou na mesa externa do café, duas cadeiras de alumínio riscadas pelo uso, a vista para o mar cortada por postes de luz. Mateus já estava ali, encostado na cadeira, o rosto meio sombreado pelo toldo que batia com o vento. O associado de longa data vestia a mesma jaqueta de couro que usava desde os tempos de faculdade em Olinda, o cabelo castanho penteado para trás, os olhos castanhos fixos no celular dele. Thiago puxou a cadeira e sentou, sentindo a brisa salgada bater no rosto, carregando o cheiro de peixe fresco de algum carrinho de rua próximo.
— Chegou na hora, Thiago — disse Mateus, a voz baixa, quase engolida pelo barulho de uma moto acelerando na avenida. Ele empurrou um copo de suco de caju pela mesa, o líquido âmbar tremendo com a vibração do chão. — O gráfico tá lindo. Você conseguiu o que queria.
Thiago abriu o laptop, conectando ao Wi-Fi do café. A tela carregou o dashboard do token. Ele viu os números subindo, mas algo parecia errado: um volume estranho de vendas aparecendo de uma exchange que ele não reconhecia. O coração dele acelerou, mas ele manteve a voz calma.
— Os patrocínios do Náutico estão confirmados até o fim do mês. Quero que a gente revise o modelo hoje à noite, Mateus. Ninguém mais pode ter acesso. Eu já transferi os arquivos para o drive seguro.
Mateus deu uma risada curta, sem humor, e acendeu um cigarro, o fósforo riscando no ar úmido. O cheiro de tabaco misturou-se ao sal e à fumaça dos carros.
— Sempre você no controle, né? Eu lembro quando a gente começou isso no Capibaribe, olhando os dados do rio como se fossem gráficos de bolsa. Eu fazia as buscas, você ajustava os parâmetros. Agora, de repente, tem patrocínio grande e você quer guardar tudo.
Thiago sentiu o ar na pele, a brisa mais forte agora, carregando partículas de areia que grudavam nos lábios. Ele olhou para o mar, as ondas distantes batendo como um pulso constante, e pensou no quanto Mateus tinha ficado de lado nas últimas semanas. Os lucros tinham vindo rápido depois da previsão no Ilha do Retiro, e ele tinha assumido as negociações sozinho.
— Não é guardar, é proteger. O modelo correlaciona volume de cripto com os resultados do Náutico de um jeito que ninguém mais vai entender tão cedo. Se vazar, o clube perde tudo que ganhou. E eu perdi a noite inteira ontem garantindo que os novos contratos chegassem.
Mateus inclinou-se para frente, o cotovelo na mesa úmida. Seus olhos não piscavam.
— Eu sei o que o modelo faz, Thiago. Eu ajudei a montar ele. Mas quando os milhões entraram, você começou a falar em “nós” só quando precisava de alguém pra carregar o notebook. Os lucros foram pra sua conta primeiro.
A tensão subiu no peito de Thiago. Ele viu no laptop o gráfico tremer: uma venda grande, depois outra. O token começou a cair, devagar no início, depois mais rápido. Ele apertou os dedos no teclado, o plástico quente sob as pontas.
— O que você fez, Mateus?
Mateus tirou do bolso uma pequena USB preta, o plástico brilhando sob a luz de neon que acabara de acender num hotel próximo. Ele a colocou na mesa, entre os copos, sem pressa.
— Vendi o modelo pra uma galera de São Paulo. Eles pagaram bem. Disseram que iam usar pra ajustar apostas maiores, sem envolver o Náutico direto. Eu só entreguei a cópia que você me deu pra testar.
Thiago sentiu o mundo estreitar. O gráfico no laptop despencava agora, o volume explodindo em vermelho. Ele ligou o fone de ouvido e ouviu a voz de um dos patrocinadores ao telefone, uma ligação que ele tinha deixado em espera minutos antes.
— Senhor Barros, infelizmente vamos precisar rever o contrato de patrocínio. Houve uma oscilação no mercado que afeta nossa exposição ao clube. Desculpe, mas a decisão é imediata.
A ligação caiu. Thiago olhou para Mateus, a voz saindo rouca.
— Você sabe o que isso significa pro clube? A gente tinha conseguido três novos patrocínios só hoje de manhã. O Náutico ia sair do vermelho pela primeira vez em anos.
Mateus apagou o cigarro no pires, o barulho das ondas mais alto agora, como se o mar quisesse entrar na conversa.
— Eu sei o que significa pra você, Thiago. Você fica com a fama de gênio, eu fico com a sobra. Eu vi você no celular ontem à noite, transferindo os valores enquanto eu esperava no carro. Nunca me ofereceu nem dez por cento. Eu só vendi o que era meu também.
Thiago sentiu o gosto salgado na boca, não só do mar, mas da raiva que subia. Ele pegou a USB, o metal frio nos dedos, e a guardou no bolso sem olhar. O gráfico continuava caindo, o token perdendo metade do valor em minutos. Ele abriu outra aba e viu as chamadas de patrocínio chegando em sequência, todas cancelando. Uma voz de mulher no fone disse que a empresa não podia associar a imagem ao risco de manipulação de mercado. Outra, de um banco local, mencionou “preocupações éticas” depois da noite de apostas.
— Lealdade não se compra, Mateus — disse Thiago, a voz baixa, quase um sussurro contra o vento. — Eu pensei que a gente tinha isso desde o começo. O algoritmo era nosso. O clube era nosso.
Mateus levantou-se, a cadeira arranhando o piso molhado. Ele deixou uma nota de dinheiro na mesa, os olhos agora desviando para a avenida.
— Talvez você descubra que lealdade também não se guarda só pra você. Eles querem a próxima previsão, Thiago. Se não der, vão cobrar de outro jeito.
Ele virou as costas e caminhou pela calçada, desaparecendo entre os pedestres que voltavam do trabalho. Thiago ficou sentado, o laptop quente no colo, o gráfico agora uma linha reta caindo para zero. Ele ligou para o presidente do Náutico, a voz tremendo enquanto explicava que os patrocínios tinham sumido em menos de uma hora. Do outro lado, o silêncio foi a resposta.
Ele fechou o laptop, guardou na mochila e levantou. A brisa agora era mais fria, o sal misturado ao cheiro de gasolina que saía de um ônibus passando. Ele começou a caminhar para casa, os passos ecoando no asfalto molhado, as luzes de neon piscando atrás dele. Duas quadras adiante, um carro preto, vidros escuros, ligou o motor e seguiu devagar, mantendo distância, o farol baixo refletindo na água que escorria da calçada. Thiago sentiu o olhar invisível nas costas, o coração batendo mais forte que as ondas distantes. Ele apertou o bolso onde estava a USB, sabendo que o que tinha vendido não era só um modelo — era a próxima noite, e todas as que viriam depois.