A névoa fria do Planalto descia sobre o acampamento como um véu de luto, carregando o cheiro úmido de terra vermelha e capim molhado. Eram quase cinco da manhã quando Rafael Correia saiu da tenda do deputado, o casaco de linho ainda amarrotado do sono inquieto. O rumor que o jornalista do Correio da Manhã havia plantado nas ruas de Goiânia chegara ao coronel na véspera, sussurrado em algum gabinete de luz amarela: “os corpos da assembleia não foram obra de jagunços comuns”. Rafael sentia o gosto amargo na boca. O projeto da nova capital, aquele sonho de concreto e poder no meio do cerrado, dependia de cada silêncio comprado. E agora o silêncio estava rachando.
Isabel Mendes acordara antes dele. A viúva trajava um vestido escuro de crepe, o luto pelo marido morto ainda servindo de escudo contra perguntas. Ela caminhava entre as fogueiras apagadas, distribuindo ordens baixas aos ajudantes do acampamento político. Seus olhos encontraram os de Rafael por cima das cabeças dos homens que desmontavam barracas. O olhar deles durou um segundo a mais do que o permitido. Havia calor ali, um calor que cheirava a culpa e a desejo, e que prometia mais uma noite de conspiração se sobrevivessem ao dia.
O primeiro sinal de que algo estava errado veio com o vento: fumaça acre, não de lenha, mas de papel queimando. Alguém estava destruindo documentos no barracão central. Rafael correu. Três ajudantes jogavam pastas de processo e mapas da futura Brasília dentro de um tambor de óleo. As chamas lambiam as bordas das folhas com um crepitar seco, soltando um fedor químico que ardia na garganta.
— Deputado, o coronel mandou dizer que vai inspecionar pessoalmente — avisou um dos homens, a voz trêmula. — Trouxe o tenente e dez praças.
Isabel apareceu ao lado de Rafael, o rosto calmo, mas os dedos apertando o próprio pulso.
— Queimem tudo que mencione a assembleia do Cerrado — ordenou ela. — Mapas, atas, nomes. Agora.
O barulho de cascos e botas soou antes que terminassem. A neblina se abriu para revelar o destacamento do coronel: homens de farda cáqui, rifles em riste, e à frente o tenente Olavo Pires, rosto marcado por uma cicatriz na maçã do rosto esquerda. Atrás dele, o coronel não apareceu; mandara o subordinado para fazer o trabalho sujo.
— Ninguém sai do acampamento — gritou Olavo. — Ordem do alto. Há boatos de que aqui se esconde prova de assassinato político.
Os machetes entraram em ação quase no mesmo instante. Os soldados avançaram cortando lonas de lona com golpes úmidos e ritmados: *tac, tac, tac*. As barracas se abriam como peles rasgadas, revelando camas desfeitas e malas abertas. Um cheiro de poeira velha e suor velho subiu. Rafael sentiu o coração bater contra as costelas. Isabel, a seu lado, respirava controlada, mas ele viu o tremor mínimo em seu maxilar.
— Fiquem calmos — murmurou ela para os ajudantes. — São só boatos. O projeto da capital não pode parar por fofoca de jornal.
O tenente Olavo parou a dois metros deles. Seus olhos percorreram Isabel de cima a baixo, demorando-se no colarinho do vestido.
— Dona Isabel Mendes. Viúva do falecido Mendes, que tanto apoiou a mudança da capital. O senhor coronel ficou curioso sobre o que a senhora faz aqui tão cedo, sozinha entre tantos homens.
— Faço o que sempre fiz: protejo o que meu marido acreditava — respondeu ela, a voz firme, mas com um leve tremor que só Rafael captou. — Se quiser falar, tenente, que seja em particular. Há coisas que não convém discutir diante de todos.
Olavo hesitou. O olhar dele deslizou para Rafael, depois voltou.
— Particular, então. Venha.
Isabel deu um passo à frente, indicando com a cabeça um caminho entre as tendas ainda intactas. Rafael não se moveu de imediato. Apenas trocou com ela um olhar rápido, carregado de tudo que não podiam dizer: o segredo dos corpos na assembleia, o sangue que ainda marcava a terra do Cerrado, o desejo que os mantinha juntos apesar da reputação que arriscavam. Aquela troca de olhos queimava como brasa sob cinzas — erótica na cumplicidade, condenatória na certeza de que, dali em diante, não haveria volta. Eles estavam juntos agora, não só na cama, mas na sujeira.
Enquanto Isabel conduzia Olavo para longe do centro do acampamento, Rafael deu a volta larga, contornando as tendas pelo lado do capim alto. A névoa engolia os sons; só se ouvia o crepitar do fogo nos documentos e, de vez em quando, o golpe seco de outra lona sendo rasgada. O cheiro de sangue fresco ainda não estava no ar, mas Rafael sabia que chegaria. Ele carregava o revólver no bolso interno do casaco, o peso frio contra as costelas.
Isabel parou perto de uma árvore baixa, onde a neblina era mais densa. Olavo aproximou-se, desconfiado.
— Fale logo, dona Isabel. O que a senhora sabe sobre os boatos?
— Sei que alguém está usando o nome do meu falecido para sujar o projeto — disse ela, baixando a voz para um tom íntimo, quase conspiratório. — E sei que o senhor, como homem de confiança do coronel, pode ajudar a abafar isso antes que chegue aos jornais de verdade.
Olavo deu mais um passo. O cheiro de pólvora e suor dele misturava-se ao da névoa.
— A senhora tem uma voz que me lembra algo — falou ele devagar. — Uma voz que ouvi certa noite, perto da assembleia. Uma mulher gritando ordens enquanto os jagunços... terminavam o serviço.
O ar pareceu engrossar. Isabel não recuou, mas Rafael, que agora estava atrás do tenente, viu a tensão nos ombros dela. O tenente levou a mão ao coldre.
— É a sua voz, dona Isabel. Eu reconheço.
Ele sacou o revólver. O clique do cão soou alto na manhã silenciosa.
Rafael atirou primeiro.
O estampido ecoou como um veredicto, seco e final. A bala acertou Olavo na lateral do pescoço. O sangue jorrou em spray arterial, quente e cobre, misturando-se à névoa fria com um cheiro metálico forte que subiu imediatamente. O tenente cambaleou, o revólver caindo na grama molhada. Caiu de joelhos, depois de lado, o corpo convulsionando uma vez antes de ficar imóvel. O sangue escorreu pela terra vermelha, formando poças escuras sob o capim.
Isabel ficou parada por dois segundos, o rosto branco, os olhos fixos no cadáver. Depois olhou para Rafael. O cheiro de pólvora queimada misturava-se ao da fumaça dos documentos e ao sangue fresco. Ninguém gritou ainda; o acampamento ainda estava ocupado com os outros soldados mais longe.
— Rápido — sussurrou ela.
Juntos, eles agarraram os tornozelos e os ombros do tenente. O corpo era pesado, o sangue ainda escorrendo e manchando as mãos de Isabel. Arrastraram-no pelo capim alto, as folhas altas fechando-se atrás deles como uma cortina verde. Os dedos de Isabel entrelaçaram-se aos de Rafael na perna do morto, a pele dela quente e úmida contra a dele, num aperto que era ao mesmo tempo necessidade e promessa. Cada passo era um risco maior. O corpo deixava um rastro escuro na terra.
— Eles vão procurar ele — disse Rafael, a voz rouca. — Quando não voltar, o coronel vai mandar mais homens.
— Então queimamos mais documentos — respondeu Isabel, sem soltar a mão dele. — E inventamos uma história. O tenente saiu para investigar o capim e nunca voltou. O projeto não pode parar.
Eles pararam mais fundo no mato, longe o suficiente para que o corpo não fosse visto logo. Largaram o cadáver entre as touceiras. Isabel limpou as mãos na saia, deixando manchas escuras no crepe preto. Rafael guardou o revólver, o metal ainda quente. O olhar que trocaram ali, no meio do cerrado ensanguentado, era o mesmo de antes — carregado de desejo, de cumplicidade, de medo de que o próximo boato já trouxesse os nomes deles juntos: amantes e assassinos.
Ao longe, os machetes continuavam a bater nas lonas. A fumaça acre subia mais alta agora, carregando cinzas de mapas que nunca seriam vistos. O sol começava a romper a névoa, revelando o vermelho da terra misturado ao vermelho do sangue. Eles voltariam ao acampamento separados, como sempre. Mas algo havia mudado. O primeiro encobrimento conjunto estava feito. E o próximo rumor, Rafael sabia, não falaria apenas de política. Falaria deles.
Isabel soltou a mão dele por fim, mas o calor da palma dela ficou na pele de Rafael como uma marca. Eles caminharam de volta em silêncio, cada um por um caminho diferente entre o capim, enquanto o acampamento acordava para o dia de sangue e mentiras que os esperava. O projeto da capital exigia sacrifícios. E eles já haviam começado a pagar.