A luz das lanternas batia nas paredes de lona das tendas como um pulso âmbar, esticando sombras longas sobre o chão de terra batida do acampamento. O cerrado ao redor respirava úmido e selvagem, cheiro de madeira queimada misturado ao álcool da cachaça derramada em copos de estanho. De vez em quando, o uivo distante de uma onça pintada cortava o silêncio, ecoando entre as árvores secas como um aviso de que ninguém ali estava seguro. O jantar fechado reunia apenas os deputados mais próximos do projeto da nova capital: Rafael Correia, Isabel Mendes, o velho deputado Lourenço Prado e o segundo deputado, Álvaro Neves, que chegara de Goiás na véspera com olhos afiados e língua solta.
A mesa improvisada era uma tábua sobre cavaletes, coberta por uma toalha manchada de vinho tinto que parecia sangue seco. Pratos de feijão tropeiro esfriavam, gordura endurecendo nas bordas. Isabel sentava-se ao lado de Rafael, o xale negro cobrindo os ombros finos, o rosto pálido iluminado pelo fogo da lamparina central. Ela sorria pouco, mas seus olhos encontravam os dele em intervalos curtos, carregados de algo que nenhum dos outros homens podia nomear.
— O problema, meus senhores — disse Álvaro Neves, cortando o silêncio com a faca no prato —, não é só o dinheiro do Congresso. É a papelada. Onde está a escritura original do Planalto? Ouvi dizer em Goiânia que o documento sumiu depois que o velho fazendeiro morreu. E que a viúva Mendes agora carrega a chave. Isso é verdade, dona Isabel?
O ar ficou mais denso. O cheiro de fumaça de lenha entrou mais forte pela fresta da lona, misturando-se ao suor dos homens. Rafael sentiu o coração bater contra as costelas, mas manteve a voz firme.
— Neves, essa conversa não combina com cachaça e feijão. O projeto da capital no Cerrado é maior que uma escritura. O Congresso já aprovou a comissão. O que importa é o que fazemos aqui, não o que morreu há dois anos.
Isabel ergueu o copo devagar, os dedos longos manchados de terra vermelha do dia anterior. Sua voz saiu baixa, mas cortante como faca de açougueiro.
— Meu irmão cuidou da terra antes de mim, deputado. Ele era homem de palavra. Se a escritura está com a família Mendes, é porque era nossa por direito. Não preciso provar nada a quem chega agora.
Lourenço Prado pigarreou, limpando a garganta com um gole de cachaça que desceu queimando. A lanterna balançou com o vento que entrava por baixo da lona, fazendo as sombras dançarem nas paredes de lona como fantasmas armados.
— O rapaz tem razão, Neves. Em 1924, depois da revolta dos tenentes, ninguém quer mais sangue no Planalto. O que aconteceu na Assembleia do Cerrado no mês passado já bastou. Três homens mortos por causa de boatos sobre terras. Vamos focar no que importa: transferir a capital antes que São Paulo engula tudo.
Álvaro Neves não recuou. Ele inclinou-se para frente, o bigode molhado de bebida, os olhos fixos em Isabel.
— Três mortos é pouco perto do que pode vir. Eu vi o relatório incompleto. O fazendeiro original, o tal de Souza Lima, foi encontrado com um tiro na nuca. A escritura que ele assinou antes de morrer sumiu. E agora a viúva carrega os papéis. Pergunto de novo: como uma mulher sozinha herdou tudo isso sem que ninguém contestasse? Ou o irmão dela resolveu o problema com pólvora?
O silêncio que caiu foi cortado apenas pelo uivo mais próximo da onça. Rafael sentiu o gosto metálico na boca, como se já provasse o medo. Isabel não tremeu. Ela pousou o copo e olhou diretamente para Neves.
— Meu irmão era homem de ação, não de papéis. Se houve violência, foi para proteger o que era nosso. O projeto de Brasília não vai parar por causa de um cadáver velho. Ou o senhor prefere que a capital fique no Rio, onde os corruptos mandam?
Neves sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos. Ele ergueu o copo em brinde falso.
— Então que o sangue que já correu sirva de adubo pro Cerrado. Mas eu vou continuar perguntando, Mendes. Amanhã, quando o sol nascer, quero ver a escritura original. Sem ela, o Congresso pode rasgar tudo.
O jantar terminou em tensão. Os homens se retiraram um a um, botas pesadas na terra seca, deixando rastros de cachaça e tabaco. Isabel ficou para trás, recolhendo os pratos com mãos firmes. Rafael esperou até que as lanternas das outras tendas se apagassem. A noite do cerrado era absoluta, só o brilho âmbar fraco da lanterna dentro da tenda dela rompendo o breu. O ar cheirava a fumaça, suor e o perfume amargo de ervas que ela usava no cabelo.
Depois da meia-noite, quando o acampamento dormia e o uivo das onças soava mais perto, Rafael se moveu. Ele abriu a lona da tenda dela com cuidado, o tecido rangendo como pele viva. Isabel estava de pé junto à mesa pequena, a lanterna baixa fazendo sua silhueta projetar-se grande na parede de lona. O vestido preto colava no corpo pelo calor, o decote revelando a pele úmida do pescoço.
— Rafael — ela sussurrou, sem surpresa. — Você não devia estar aqui.
Ele fechou a distância em dois passos. As mãos dele encontraram os ombros dela, sentindo o calor através do tecido fino. O beijo veio urgente, carregado de tudo que não podiam dizer em voz alta. O gosto era de sal, de cachaça e de medo — o medo de que o projeto, a reputação, as vidas deles dependessem daquele silêncio. Ela correspondeu com força, os dedos cravando na nuca dele, o corpo pressionando contra o dele como se quisesse fundir os dois em um só segredo. O beijo durou, intenso, sensual, os lábios se movendo devagar depois do choque inicial, explorando o limite do que podiam permitir sem cair no abismo.
— Isabel — ele murmurou contra a boca dela, a voz rouca. — O que aquele homem disse... sobre seu irmão...
Ela afastou o rosto só o suficiente para olhar nos olhos dele. A lanterna tremulava, jogando luz âmbar no rosto dela, destacando as linhas de tensão ao redor da boca. Fora, o cerrado continuava vivo, insetos zumbindo, uma onça rugindo mais distante agora.
— Meu irmão atirou no Souza Lima — ela disse, a voz baixa mas clara, como quem confessa um pecado que já carregava há tempo demais. — Foi há três anos. O fazendeiro não queria vender a terra para o projeto. Disse que a capital nunca viria pro Cerrado, que era sonho de louco. Meu irmão o encontrou sozinho na fazenda, discutiram, e a arma saiu. Depois ele forjou a assinatura na escritura. Eu herdei tudo quando ele morreu de febre no ano seguinte. Os papéis estão sujos de sangue, Rafael. Literalmente. O documento que temos é falso, construído sobre um cadáver.
O beijo seguinte foi mais lento, mais desesperado. Eles se abraçaram no centro da tenda, o tecido da lona rangendo ao vento, o cheiro de madeira queimada entrando pelas frestas. O desejo era real, quente, mas carregado de reconhecimento mútuo: aquilo que sentiam um pelo outro agora os prendia ao silêncio. Se um falasse, o outro cairia junto. A reputação de Isabel, a carreira de Rafael, o projeto inteiro de transferir a capital — tudo dependia de manter o segredo.
Isabel se afastou um instante, foi até o baú pequeno ao pé da cama improvisada e tirou um envelope grosso, amarelado. O papel estava manchado de marrom-escuro, ressecado, mas inconfundível como sangue seco. Ela o pressionou nas mãos dele, os dedos tremendo levemente pela primeira vez naquela noite.
— Aqui está. A escritura original, com a assinatura forjada. O sangue do Souza Lima ainda marca a borda. Eu guardei porque, sem isso, o projeto morre. Mas agora que Neves está perguntando, você precisa saber o que carrega.
Rafael olhou para o documento sob a luz âmbar da lanterna. As letras eram tortas, a data de 1921, o nome Souza Lima traçado com mão que não era dele. A mancha marrom na margem inferior parecia uma ferida aberta. Ele sentiu o peso do papel nas mãos como se fosse o peso de todos os corpos que já tinham caído pelo caminho — os três da Assembleia do Cerrado, o fazendeiro, talvez mais que viriam. O uivo da onça soou novamente, mais próximo, como se o animal soubesse que o segredo agora tinha nome e forma.
Isabel encostou a testa no ombro dele, o corpo ainda quente do abraço anterior.
— Se queimarmos isso, o projeto acaba. Se guardarmos, carregamos o crime pra sempre. O que fazemos, Rafael?
Ele não respondeu. Ficou ali, sob a lona que brilhava como pele viva contra o cerrado escuro, segurando o documento que provava que a nova capital do Brasil nasceria sobre um cadáver. O ar da tenda cheirava a medo, desejo e pólvora antiga. Lá fora, o vento trazia o cheiro distante de mais fumaça, como se o Cerrado inteiro esperasse o próximo tiro.