O sol de maio de 1925 batia sem piedade sobre a clareira de terra vermelha, transformando o ar em uma lâmina quente que cortava a pele. Ao redor, as lonas das tendas batiam secas no vento seco do cerrado, produzindo um ruído constante como o de ossos se entrechocando. O cheiro de esterco de gado se misturava ao suor dos homens aglomerados e ao odor metálico da pólvora que ainda não havia sido disparada, mas que já pairava como presságio. Moscas zumbiam sobre as pilhas de caixas de suprimentos, atraídas pelo calor e pela promessa de sangue.
Na assembleia improvisada, o deputado rival, o velho Dr. Artur Viana, erguia a voz rouca contra o projeto de transferir a capital para o Planalto Central. Sua figura magra, envolta em um paletó puído, destacava-se sobre uma plataforma de tábuas. Ao lado dele, o deputado Rafael Correia observava em silêncio, os olhos escuros semicerrados contra o brilho do sol. Rafael era um homem de trinta e oito anos, ombros largos moldados por anos de cavalgadas pelo interior, o rosto marcado por uma cicatriz fina na mandíbula esquerda que ele nunca explicava. Seu terno de linho bege estava amarrotado, as mangas arregaçadas revelando antebraços bronzeados.
— Não permitiremos que esta loucura de Brasília seja imposta às custas de nossas terras! — bradava Viana, apontando o dedo trêmulo para o mapa estendido sobre uma mesa de campanha. — O Planalto é ermo, sem água, sem gente. É um sonho de especuladores!
Isabel Mendes estava entre as poucas mulheres presentes, postada à sombra de uma tenda maior, o xale preto de viúva contrastando com o vestido de algodão bege que se colava ao corpo pelo suor. Tinha trinta e quatro anos, cabelos castanhos presos em um coque severo, olhos verdes que observavam tudo com uma calma forçada. A morte do marido, o coronel Mendes, seis meses antes, ainda pesava em seus ombros, mas ela carregava também a herança de terras vastas no entorno do Planalto — terras que o projeto de capital ameaçava ou valorizava, dependendo de quem contava a história. Ela não deveria estar ali, mas o convite do irmão, o fazendeiro que controlava parte dos votos rurais, a obrigara a comparecer.
Rafael a viu da plataforma. Seus olhares se cruzaram por um instante, e algo passou entre eles — um calor que não era do sol. Isabel desviou os olhos primeiro, sentindo o pulso acelerar. Desde o enterro do coronel, ela tentara enterrar também qualquer pensamento sobre Rafael, o homem que seu marido havia chamado de “o único decente nesta pocilga política”. Mas o olhar dele, agora, era diferente: protetor, faminto, carregado de algo que ela reconhecia em si mesma.
De repente, o som de cascos e gritos rompeu o ar. Três homens a cavalo surgiram da beira do cerrado, revólveres em punho. Eram pistoleiros do coronel Mendes — ou melhor, do que restava de sua facção, agora comandada por interesses que queriam o silêncio de Viana. O primeiro tiro soou como um chicote: seco, metálico, ecoando pela clareira.
O caos explodiu. Deputados se atiraram ao chão, gritando. Viana cambaleou, uma mancha vermelha se abrindo no peito. Outro tiro acertou um ajudante próximo, que caiu com um grito abafado, o sangue jorrando na terra vermelha. Moscas já começavam a descer sobre os primeiros corpos.
Rafael não hesitou. No instante em que o primeiro estampido ecoou, ele saltou da plataforma e correu em direção a Isabel. Seus braços a envolveram, puxando-a para trás de uma carroça de suprimentos carregada de lonas e barris de água. O impacto a jogou contra o veículo, e o corpo dele a cobriu, protegendo-a. As mãos dele permaneceram em sua cintura, os dedos pressionando o tecido fino do vestido, demorando-se mais do que o necessário para um simples gesto de salvação. Isabel sentiu o calor do peito dele contra suas costas, o fôlego quente e acelerado roçando a nuca exposta, misturando-se ao cheiro de pólvora e suor.
— Fique quieta — murmurou ele, a voz rouca, quase contra sua pele. O toque das mãos dele enviou uma onda de calor que ela não conseguia nomear, um desejo proibido que ela havia tentado sepultar junto com o coronel. Mas ali estava, vivo, pulsando entre eles como o vento quente que agitava as lonas.
Isabel respirou fundo, o coração martelando. O cheiro dele — tabaco, poeira e algo mais primal — invadiu seus sentidos. Reconheceu a fome nos olhos dele quando ele se inclinou, o rosto a centímetros do seu, os lábios entreabertos. Era o mesmo anseio que ela sentia, enterrado sob camadas de luto e reputação. O projeto de Brasília era o pretexto; por baixo, havia terras, herança, e agora sangue.
— Rafael... — sussurrou ela, mas as palavras morreram quando outro tiro soou, mais próximo. Balas perfuraram a lona da carroça, estilhaçando madeira. O gosto metálico da cordite misturava-se ao esterco e ao sangue fresco no ar. Moscas zumbiam mais alto agora, atraídas pelos corpos que se acumulavam na poeira.
Do outro lado da clareira, o Dr. Viana, caído, arrastou-se em direção a eles, o sangue escorrendo pela boca. Seus olhos vidrados reconheceram Isabel. Ele estendeu uma mão manchada.
— Isabel... sua família... o irmão... a escritura das terras... está manchada do mesmo sangue... — O último suspiro saiu gorgolejante, o corpo convulsionando antes de ficar imóvel. Moscas já pousavam em seus olhos abertos.
Isabel sentiu o mundo girar. O irmão — aquele que a havia obrigado a vir — envolvido em mortes por causa das terras do Planalto? O projeto de capital, que Rafael defendia com fervor, estava enredado em assassinatos. O dilema moral a sufocava: encobrir ou denunciar, arruinar tudo.
Rafael a puxou mais para perto, o corpo dele ainda pressionando o dela contra a carroça. As mãos dele não se afastaram da cintura, os polegares traçando círculos lentos e inconscientes no tecido, carregados de uma tensão que nenhum dos dois ousava nomear. O fôlego dele continuava quente em sua nuca, enviando arrepios que contrastavam com o calor impiedoso do sol.
— Eles querem silenciar quem se opõe — disse ele em voz baixa, os olhos varrendo a clareira em busca de mais perigo. Deputados sobreviventes corriam, alguns atirando de volta com revólveres de bolso. O vento agitava as lonas, o cheiro de morte se espalhando. — Isabel, isso não é só política. É herança, é reputação. Seu irmão... e o que restou do coronel... estão no meio.
Ela sentiu o peso das palavras dele, misturado ao contato físico que a queimava por dentro. O romance que nunca tinham nomeado — proibido pela viúvez recente, pela diferença de posições, pelo escândalo que arruinaria o projeto de Brasília — agora explodia em meio ao sangue. Ela queria se afastar, mas o corpo não obedecia. O calor das mãos dele era um consolo e uma tentação.
— Meu irmão me usou — murmurou ela, a voz trêmula. — As terras... o coronel as queria para o Planalto. E agora isso.
Outro tiro ecoou, mais distante agora, enquanto os pistoleiros recuavam para o cerrado. Corpos jaziam na terra vermelha, o sangue escurecendo sob o sol. Moscas formavam nuvens pretas sobre eles. Rafael virou o rosto para ela, os olhos escuros cheios de uma fome que ele mal conseguia conter.
— Precisamos nos encontrar em segredo — sussurrou ele, o fôlego roçando seu ouvido, as mãos apertando levemente sua cintura. — Antes da próxima votação da comissão. Se descobrirem o que sabemos... sobre as escrituras, sobre o sangue... o projeto desmorona. E nós também.
Isabel assentiu, o pulso acelerado contra o dele. O primeiro corpo — o de Viana — já esfriava a seus pés, o sangue coagulado misturando-se à poeira. O vento quente trazia o cheiro de mais morte, mas entre eles havia uma faísca ilícita, acesa no meio da carnificina. Eles ficaram agachados ali, corpos colados, enquanto o caos diminuía e o sol implacável continuava a queimar o cerrado, testemunha silenciosa de conspirações e desejos que nenhum decreto político poderia apagar.
O rugido distante de cavalos se afastando marcou o fim do ataque, mas o verdadeiro perigo — o dilema de encobrir ou destruir — apenas começava. Rafael não afastou as mãos. Isabel não pediu que afastasse. O segredo já os unia, sangrento e proibido.