A varanda do Solar Vieira ainda gotejava água da chuva que caíra sem trégua a noite inteira. Renata apoiou os cotovelos na balaustrada de madeira inchada, sentindo o sal do rio secar na pele dos braços. O cheiro doce e podre das mangas maduras demais subia do pé de árvore tombado no quintal alagado, misturando-se ao fedor de lama do mangue que começava logo além do muro baixo. Ela vestia o mesmo vestido de linho claro da véspera, agora marcado por manchas de umidade, e os cabelos presos em um coque frouxo deixavam o pescoço exposto ao vento quente que soprava do Capibaribe.
Na mão direita, um copo de cachaça repousava intacto. Na esquerda, a lamparina de querosene acesa tremeluzia, refletindo seu próprio rosto no vidro embaçado. Ela não conseguia parar de pensar no nome de Arnaldo. O homem que mandara matar seu pai por causa de um esquema de propina no porto de Suape. E Lucas era o filho dele. O mesmo Lucas cujas mãos ela já conhecera, anos antes, em noites de verão quando o desejo parecia capaz de queimar tudo.
O som de água sendo deslocada a passos firmes a fez erguer a cabeça. Lucas surgiu na entrada da varanda, a camisa de algodão colada ao peito largo, os ombros molhados brilhando sob a luz fraca. Ele parou a poucos metros, os olhos escuros semicerrados, a boca traçando aquele meio-sorriso que nunca chegava a aquecer o olhar.
— Vim ver se a casa aguentou — disse ele, a voz baixa, rouca de quem andava sob a chuva. — A ponte de Santo Antônio está intransitável, mas o caminho pelo mangue ainda dava.
Renata não se moveu. Sentia o pulso latejar na garganta, o mesmo pulso que ela agora observava, visível logo acima da gola aberta da camisa dele. O desejo subia como fumaça, quente, obstinado, enquanto a razão repetia: ele é filho de Arnaldo. Filho do homem que enterrou o pai dela em uma vala de concreto no cais.
— Entra — respondeu, virando-se para a mesa. Serviu outra dose de cachaça com dedos que não tremiam. — A enchente levou parte do telhado do anexo. Se você veio checar, pode começar por aí.
Lucas subiu os dois degraus. O cheiro dele — chuva, suor, algo de limão azedo — misturou-se ao aroma das mangas podres. Ele aceitou o copo, os dedos roçando os dela por um segundo a mais do que o necessário. Renata sentiu o calor subir pelas coxas, subir pelo ventre, e odiou a si mesma por isso.
— Você voltou no pior momento — ele disse, encostando-se na balaustrada ao lado dela. A luz da lamparina refletia no tecido úmido da camisa, desenhando o contorno dos músculos. — Todo mundo no porto está falando do seu retorno. Advogada de São Paulo voltando para o solar decadente. Parece história de romance barato.
Renata tomou um gole pequeno. O álcool queimou a garganta, mas não apagou o fogo mais fundo.
— Não vim para romance. Vim porque o solar é meu agora. E porque tem gente que precisa responder por coisas antigas.
O meio-sorriso dele vacilou, mas não desapareceu.
— Coisas antigas — repetiu, como se testasse o peso das palavras. — Tipo o que aconteceu com seu pai.
O nome do pai pairou entre eles, denso como a umidade. Renata fixou o olhar na linha do pescoço dele, onde a veia pulsava, visível sob a pele morena. Ela imaginou morder ali, não por carinho, mas por necessidade de marcar, de reivindicar algo que o tempo e o crime haviam roubado. Ao mesmo tempo, a voz interna gritava: ele sabe. Ele sempre soube.
— Meu pai morreu por causa de contratos de dragagem que nunca foram feitos — continuou ela, a voz controlada. — Dinheiro que sumiu. Gente que fechou os olhos. Eu quero saber quem fechou.
Lucas girou o copo entre os dedos. A luz da lamparina dançava nos olhos dele, que não sorriam.
— E você acha que eu sei?
— Acho que você ouviu coisas. Arnaldo falava em casa. Você cresceu ouvindo.
O vento soprou mais forte, trazendo o rangido distante das janelas do solar. Algo se moveu na água do jardim inundado — talvez um galho, talvez outra coisa. Renata sentiu o ar engrossar, como se a casa inteira prendesse a respiração.
Lucas deu um passo mais perto. O peito dele quase tocava o braço dela.
— Eu pensei em você todas as noites desde que você saiu do Recife — disse ele, sem rodeios, a voz baixa e direta. — Não como namorada de verão. Pensei na forma como você olhava para o rio quando queria fugir. Pensei na forma como seu corpo ficava quente depois que a gente brigava. Pensei até demais. Ainda penso.
Renata sentiu o sangue subir ao rosto, ao pescoço, às coxas. O desejo era incandescente, quase doloroso, mas carregava o gosto amargo da traição. Ele era o filho do homem que ela viera destruir. E ainda assim ela queria encostar a boca naquela pulsação da garganta, queria sentir o gosto de sal e cachaça na língua dele.
— Lucas… — começou, mas a voz falhou.
Ela estendeu a mão para ajustar a lamparina, que ameaçava apagar com o vento. Os dedos dele se moveram ao mesmo tempo para segurar a base. As mãos se tocaram. A palma dele era quente, áspera de trabalho no cais. O toque durou dois segundos, talvez três. O suficiente para o ar entre eles vibrar como corda de violão.
Foi nesse instante que o mangue respondeu.
Um rosnado baixo, grave, saiu das sombras escuras além do muro. Não era som de animal conhecido — não de cachorro, não de onça. Era algo que vibrava no peito, que fazia a água do jardim tremer em círculos pequenos. O vulto ainda não tinha forma, mas sua presença se fez sentir como peso no ar, como se o próprio solar inclinasse a cabeça para ouvir.
Renata e Lucas se afastaram ao mesmo tempo, mas não o suficiente. Os olhos dele se arregalaram por uma fração de segundo, depois voltaram ao meio-sorriso controlado.
— A casa está ouvindo — murmurou ele, quase sem som.
Renata sentiu o coração bater contra as costelas. O rosnado cessou, mas o silêncio que ficou era pior. A luz da lamparina tremia, projetando sombras longas na parede caiada da varanda. Na água do jardim, o reflexo das duas silhuetas — dela e dele — apareceu distorcido, alongado, como se uma terceira forma se sobrepusesse, fundindo-se às deles.
Ela engoliu em seco. O plano ainda estava intacto: testar se Lucas podia ser puxado para dentro sem revelar tudo. Mas o toque das mãos havia aberto uma rachadura. O desejo que ela carregava há anos agora pulsava ao lado do rosnado do mangue, dois ritmos que pareciam pertencer ao mesmo corpo.
— Você vai ficar até a água baixar? — perguntou ela, a voz mais rouca do que pretendia.
Lucas olhou para o jardim. A sombra alongada ainda estava lá, tremendo levemente na superfície da água, como se respirasse.
— Vou ficar — respondeu. — Mas não só por causa da enchente.
O vento trouxe outro cheiro: algo metálico, como ferrugem molhada. Renata apertou o copo com mais força. O solar parecia vivo agora, atento, julgando cada palavra, cada respiração entre eles. O vulto havia dado o primeiro sinal. E as silhuetas unidas na parede continuavam ali, refletidas, como promessa ou como ameaça.
Lucas deu mais um passo. O ombro dele roçou o dela. O calor do corpo dele atravessou o tecido fino do vestido. Renata não recuou. O pulso na garganta dele continuava visível, batendo mais rápido agora. Ela queria morder. Queria descobrir. Queria que o mangue parasse de ouvir.
— Me conta o que você realmente quer, Renata — disse ele, quase num sussurro. — Não a história do porto. A sua.
A lamparina crepitou. O rosnado não voltou, mas a água do jardim se moveu de novo, formando ondas pequenas que não combinavam com o vento. As silhuetas na parede se alongaram mais, a sombra de Lucas e a dela quase se fundindo em uma única forma escura.
Renata sentiu o desejo subir como maré, quente, inevitável, perigoso. Ela sabia que o plano exigia cautela. Mas o corpo não obedecia à razão. O corpo queria o gosto dele, queria o segredo dele, queria tudo que o sobrenome dele carregava.
Ela ergueu o copo e tomou o resto da cachaça de um gole só. O álcool desceu queimando, mas não apagou o fogo.
— Eu quero que você fique — respondeu por fim. — E quero que você me conte o que Arnaldo sabe.
O meio-sorriso dele se abriu um pouco mais, ainda sem chegar aos olhos. A luz da lamparina refletia no peito molhado, traçando linhas de água que desciam até a cintura. O mangue ficou em silêncio absoluto, como se esperasse a resposta dele.
A sombra na água se mexeu novamente, mais longa, mais escura, abraçando as duas figuras na parede como se já as tivesse escolhido.
Renata sentiu o coração bater mais forte. O teste havia começado. E o solar, com seu vulto escondido, assistia a cada palavra.