Renata Siqueira pisou na soleira do Solar Vieira com o linho empapado colado ao corpo, o tecido branco agora tingido de marrom-claro pelo limo do Capibaribe. A água ainda escorria de suas botas de borracha, formando poças pequenas no piso de azulejo rachado que o pai mandara instalar nos anos noventa. Ela sentiu o gosto metálico do silte na língua, um gosto que subia do rio como se o próprio Recife cuspisse de volta tudo o que engolira. O vento nordeste batia nas persianas azuis descascadas, fazendo-as retinir como ossos soltos. Ao lado da varanda, as folhas de bananeira molhadas batiam em suas panturrilhas, pegajosas, como mãos que tentassem segurá-la.
— Volta pra onde pertence — murmurou ela, a voz baixa, rouca de poeira e raiva antiga.
O solar cheirava a mofo e a terra revirada. As paredes de adobe rangiam sob o peso da umidade, e o teto de telha colonial deixava pingar água em intervalos irregulares, como se o tempo contasse os segundos que faltavam para tudo desabar. Renata caminhou até o corrimão apodrecido da escada interna, os dedos deslizando sobre a madeira inchada. A madeira cedeu sob a pressão, soltando lascas que grudaram na palma. Ela não retirou a mão. Sentiu a culpa herdada pulsar ali, quente, sob a pele: o pai morrera por causa daquele lugar, por causa daqueles papéis que ele nunca quis queimar. E ela, a filha que fugira para São Paulo, carregava agora o mesmo nome, o mesmo sangue que permitira o silêncio por tanto tempo.
A enchente recuara há menos de uma hora. Renata vira as águas marrons descendo a rua do Horto como um animal cansado, deixando para trás uma crosta de lama que cobria o jardim até os joelhos. Ela atravessara o portão de ferro enferrujado ainda durante a vazante, sentindo o chão fofa sob os pés. Agora, parada no jardim lateral, via o canteiro de helicônias destruído, as raízes expostas como veias. Foi ali que algo brilhou: um canto de plástico azul-claro, impermeável, meio enterrado na lama. Ela se ajoelhou, as mãos afundando na terra quente e fétida. O cheiro de esgoto e mangue subiu forte. Puxou o objeto. Era uma pasta grossa, selada com fita isolante preta, do tipo que os estivadores usavam no porto para proteger manifestos de carga.
O coração dela bateu mais rápido. Arnaldo. O nome subiu como bile. O homem que frequentara a casa do pai, que brindara com cachaça de alcatrão nos dias de festa, que prometera “cuidar de tudo” depois do acidente na rampa de atracação. Renata rasgou a fita com as unhas. Dentro, folhas de papel almaço, algumas impressas, outras manuscritas, protegidas por plástico. Números de contêineres, valores transferidos para contas em Nassau, datas que coincidiam com os meses em que o pai começara a reclamar de “irregularidades” no cais de Santo Antônio.
Ela folheou depressa, a respiração curta. No meio do maço, uma página solta, escrita à caneta esferográfica azul. A letra dele. O traço firme, inclinado para a direita, com o “r” maiúsculo que ele sempre fazia como se fosse uma âncora. “Arnaldo ordenou o acidente. 12 de março. Testemunhas pagas. Não confio mais em ninguém. Se algo acontecer, Renata precisa saber.” Abaixo, uma lista de nomes de funcionários do porto, valores de propina, e uma frase final, quase rabiscada: “O vulto não é só história. Ele vem buscar o que é dele.”
Renata sentiu o estômago revirar. O calor subiu pelo peito, não o calor do Recife úmido, mas algo mais antigo, mais vivo. Desejo. Não de corpo, mas de justiça que queimava. Ela se levantou rápido demais, a pasta apertada contra o peito, e as folhas de bananeira voltaram a bater em suas pernas, agora como chicotes. O solar rangeu atrás dela, como se respondesse.
Ela entrou de novo, subiu os degraus rangentes até o quarto que fora do pai. O telefone celular ainda tinha sinal fraco. Discou o número que guardara por anos, o de Joaquim, o contato antigo na autoridade portuária, agora chefe de operações noturnas. A voz dele atendeu no terceiro toque, cansada, desconfiada.
— Renata? Depois de tanto tempo?
— Preciso de você, Joaquim. Amanhã cedo, no cais velho. Traga os manifestos de 2018 a 2021. Os que nunca entraram no sistema oficial.
Houve silêncio do outro lado. Ela ouviu o vento passando pelo manguezal lá fora, o mesmo vento que balançava as persianas.
— Arnaldo anda perguntando por documentos. Disse que qualquer coisa que apareça é falsificação. Você sabe o que isso significa aqui.
— Significa que ele tem medo — respondeu ela, a voz medida, quase doce. Por dentro, a raiva subia como maré, fazendo os dedos tremerem contra o aparelho. — Eu tenho algo que ele não quer que eu tenha. Venha ou não venha, Joaquim. Mas se não vier, eu mesma levo pro Ministério Público.
Joaquim soltou o ar pelos dentes.
— Você mudou. Antes era só a filha do doutor Siqueira. Agora parece que quer guerra.
— Não quero guerra — disse ela, olhando pela janela para a rua alagada. — Quero o que é meu.
Desligou antes que ele respondesse. Colocou a pasta em cima da cômoda de jacarandá rachada, ao lado do espelho embaçado. No reflexo, viu o próprio rosto: olhos fundos, cabelo preso em coque molhado, o linho grudado nos ombros. A culpa ainda latejava, mas agora misturada a algo mais quente. Ela queria ver Arnaldo cair. Queria ouvir o som dos papéis sendo lidos em voz alta num tribunal que cheirasse a maresia e corrupção.
Desceu de novo ao jardim. A lama chupava suas botas. Ela caminhou até o limite do terreno, onde o mangue começava, as raízes aéreas saindo da água como dedos. O cheiro de podridão era forte ali, misturado ao sal do rio. Renata parou, sentindo o vento empurrar o tecido contra a pele. Pensou no arquivista local, o velho Seu Mário, que trabalhava na fundação do bairro e sempre desconfiara de qualquer Siqueira. Poderia envolvê-lo? Ele conhecia os armários da prefeitura, saberia onde esconder cópias. Mas o risco era grande: Mário era cauteloso, e Arnaldo tinha olhos em todo lado. Melhor sozinha, por enquanto. Sozinha com o fogo que subia do peito até a garganta.
Voltou para dentro quando o céu começou a escurecer. Acendeu uma lâmpada nua no salão principal. As paredes de estuque mostravam rachaduras como veias. Ela sentou no sofá de couro rachado, a pasta aberta no colo, relendo as linhas do pai. Cada palavra era um fósforo aceso. “Arnaldo ordenou.” O desejo de vingança não era mais uma ideia abstrata; era físico, como o gosto do silte que ainda não saía da boca. Ela imaginou o momento em que confrontaria o homem: o rosto dele quando visse que o morto voltara pelas mãos da filha.
O telefone vibrou. Mensagem de Joaquim: “Amanhã, 6h. Não me envolva mais que isso.”
Renata sorriu, um sorriso pequeno e cortante. Guardou o celular. Foi até a janela que dava para a rua. A água ainda cobria parte do asfalto, refletindo as luzes distantes do centro. Ela encostou a testa no vidro quente. O vento continuava, fazendo as persianas baterem atrás dela. O solar parecia vivo, respirando com ela, compartilhando o mesmo pulso de raiva.
Foi então que os faróis varreram a rua inundada. Um carro lento, sem pressa, passou devagar. As luzes amarelas iluminaram a superfície da água por um segundo, depois se afastaram. Renata ficou imóvel. Do canto do olho, viu a silhueta baixa se desprender da borda do mangue. Uma forma escura, sem contornos definidos, que não fez barulho ao se mover. Ficou parada ali, de frente para a janela dela, apenas observando. O tempo pareceu alongar. Renata sentiu o sangue latejar nas têmporas, o desejo de descer e confrontar aquilo que quer que fosse. Mas ficou. O vulto não se moveu. Apenas ficou ali, negro contra o breu do manguezal, até os faróis reaparecerem no fim da rua e a forma desaparecer de volta entre as raízes.
Renata fechou a janela. O rangido das persianas pareceu um suspiro. Ela voltou para a cômoda, pegou a pasta, e subiu os degraus de novo, cada passo ecoando no solar vazio. O cheiro de limo ainda estava em suas mãos. O gosto metálico ainda na língua. E o fogo dentro dela, agora, não tinha mais volta.