O crepúsculo entrava pelas frestas das venezianas como lâminas de cobre enferrujado, cortando o ar parado do armazém da escola de samba. Serragem fina subia em nuvens baixas a cada passo, grudando nos sapatos de couro gasto e misturando-se ao cheiro metálico de sangue ressecado que subia das tábuas do assoalho. A cachaça azeda, derramada dias antes em alguma farra de ensaio, impregnava tudo, doce e podre ao mesmo tempo, como um gosto de boca que não saía. Laura sentiu o estômago revirar. O calor de fevereiro apertava as costelas, fazendo a blusa de cambraia colar nas costas úmidas; cada respiração era um esforço contra o peso do ar.
Sofia estava um passo à frente dela, os ombros nus brilhando de suor sob o decote do vestido de cetim preto que usara no terreiro. Seus olhos, pintados de preto de fuligem, não se desviavam do homem que emergira da penumbra entre pilhas de tambores e fantasias puídas. O inspetor Ernesto Vilela sorria sem mostrar os dentes, o queixo largo marcado por uma cicatriz antiga que puxava o lábio inferior para o lado. Ele vestia o uniforme azul desbotado, a pistola ainda no coldre, mas a mão direita já descansava no cabo como quem acarinha um animal adormecido.
— Boa noite, senhoritas — disse ele, a voz rouca de quem fumara demais. — Que coincidência encontrá-las aqui, depois do baile. E depois do terreiro.
Laura sentiu o sangue subir ao rosto. A fotografia do beijo — a dela e de Sofia, escondidas atrás do biombo de veludo no salão do Theatro Municipal — ainda queimava na memória como uma marca de ferro. Vilela tirou o envelope do bolso interno do casaco e o abriu devagar, exibindo o papel brilhante sob a luz que morria. O beijo aparecia nítido: os lábios de Sofia sobre os de Laura, a mão dela na nuca da jornalista, o leque de Sofia caído no chão.
— Bonita imagem — continuou o inspetor, quase gentil. — O Rio inteiro adoraria ver. A jornalista moralista e a cantora que faz a plateia chorar. Imaginem os jornais. Imaginem o que diria o seu pai, dona Sofia, quando soubesse que a filha que ele mandou para o conservatório prefere beijos de mulher.
Sofia deu um passo à frente. A voz saiu baixa, mas já carregava o tremor que precedia suas árias mais altas.
— O senhor não tem nada. Essa foto é falsa.
— É? — Vilela ergueu uma sobrancelha. — Então talvez eu precise de outra prova. — Ele guardou o envelope e sacou um segundo, maior, de papel mais grosso. — Esta aqui, por exemplo, foi tirada no mesmo armazém. Três noites atrás.
Abriu a fotografia com o polegar. O clarão de uma lâmpada de magnésio congelara o instante: um homem de terno claro caído de bruços entre serragem e poças escuras, o sangue ainda vivo saindo da nuca. Atrás dele, parcialmente iluminado, o próprio Vilela com o revólver na mão, o cano fumegando. O morto tinha o rosto virado, meio esmagado contra o chão, mas o colarinho bordado e o anel de sinete com a inicial “R” eram inconfundíveis.
Laura sentiu o ar faltar. Reconheceu o homem no mesmo segundo em que o coração deu um salto doloroso. Era o deputado reformista Luís Romero, aquele que ela entrevistara dois meses antes no Café do Rio para uma série sobre corrupção nas eleições. Romero defendera voto secreto, fim das fraudes no alistamento, punição para os chefes de polícia que vendiam proteção. Ele tinha falado baixo, com aquela voz cansada de quem sabia que não chegaria vivo ao fim do mandato. E agora estava ali, morto, e o homem que o matara sorria para elas.
— Reconhece, dona Laura? — perguntou Vilela, a voz doce como cachaça ruim. — O senhor Romero era seu amigo. Falava tanto de você. Disse que a sua reportagem ia mudar o Rio. Pena que ele tenha tropeçado na própria língua.
Sofia olhou para a fotografia e depois para Laura. O rosto da cantora empalideceu sob a maquiagem. Ela estendeu a mão, como se pudesse tocar o papel e apagar o que via.
— Isso é chantagem — sussurrou Laura. A palavra saiu seca, quase sem ar. — O senhor matou um homem. E agora quer que a gente cale a boca.
— Não só cale. — Vilela dobrou a foto do assassinato com cuidado, como quem guarda uma carta de amor. — Quero que calem a boca sobre isso e sobre qualquer outra coisa que vejam ou ouçam. O preço do silêncio é silêncio. Se uma de vocês abrir a boca sobre Romero, as duas fotos vão para a primeira página do Jornal do Brasil. O beijo e o cadáver. Juntos. O Rio vai comer na palma da mão. E vocês vão ser as primeiras a pagar.
O silêncio que caiu era tão denso quanto o cheiro de serragem. Laura sentiu o pulso latejar nas têmporas. Romero tinha duas filhas pequenas; ela se lembrava das fotos na mesa dele durante a entrevista. Tinha prometido que a reportagem seria justa. Tinha prometido que não usaria o nome dele em vão. Agora o homem que o matara pedia que ela escolhesse entre proteger Sofia e trair o morto.
Sofia moveu-se de repente. Colocou-se entre Laura e o inspetor, o corpo magro erguido, os seios subindo e descendo rápido sob o cetim. A voz saiu rachada no começo, depois ganhou volume, operística, ecoando contra as paredes de tábuas:
— O senhor vai ter que me matar primeiro.
Vilela não recuou. Apenas tirou a pistola do coldre com lentidão deliberada. O cano apontou para o chão, mas a ameaça estava clara.
— Não precisa ser dramática, dona Sofia. Sua voz é linda demais para acabar num lugar como este.
Laura sentiu o gosto de bile na boca. O amor que sentia por Sofia — aquele amor que começara no terreiro com tambores e velas, que se consumara em beijos roubados atrás de cortinas — agora exigia que elas protegessem um assassino. Se ficassem quietas, Romero morria duas vezes. Se falassem, o beijo que as salvara uma da outra as destruiria em praça pública. Não havia saída que não cheirasse a cinzas.
— O que o senhor quer exatamente? — perguntou Laura, tentando manter a voz de jornalista, aquela que fazia perguntas em delegacias e palácios. — Além do silêncio.
Vilela guardou a pistola, mas não fechou o coldre. O polegar continuou no cabo.
— Um bode expiatório. Alguém que assuma o tiro em Romero. Um marginal qualquer, um desafeto do terreiro, tanto faz. Até amanhã de manhã. Se não entregarem um nome e uma história convincente, as fotos circulam. Se entregarem, eu queimo os negativos. E vocês continuam a viver seus amores no escuro, como sempre fizeram.
Sofia riu, um som curto e amargo que parecia parte de uma ária trágica.
— O senhor acha que a gente vai vender uma vida pra salvar a nossa? Depois de tudo?
— Acho que vocês vão fazer o que for preciso pra não virar manchete. O Carnaval está cheio de cadáveres que ninguém reclama. Um a mais não muda nada.
Laura olhou para a fotografia ainda visível na mão dele. O anel de Romero refletia um último raio de luz. Ela pensou na entrevista: Romero tinha dito que a verdade era o único luxo que o Rio ainda podia pagar. Tinha rido ao dizer isso, como quem sabe que vai morrer por causa dela. Agora a verdade estava ali, dobrada no bolso de um policial corrupto, e o preço de guardá-la era mentir para sempre.
Sofia estendeu a mão para trás, procurando os dedos de Laura. Encontrou-os. Apertou-os com força, as unhas cravando na palma. O gesto foi pequeno, quase invisível na penumbra, mas bastou. Laura sentiu o calor da pele dela, o tremor contido, a mesma fúria que fazia Sofia erguer a voz nos palcos quando cantava sobre traição e fogo. O subtexto era claro entre elas: se protegessem Vilela, estariam protegendo o amor que as mantinha vivas. Se não, o amor morreria primeiro.
O inspetor deu um passo para trás, já se virando para a porta lateral do armazém.
— Amanhã ao amanhecer. Tragam o nome. Ou eu trago as fotos pro desfile das escolas. Imaginem o que vai acontecer quando a multidão vir o beijo e o cadáver lado a lado nas páginas dos jornais. O Carnaval vai ser ainda mais bonito.
Ele saiu sem pressa, as botas ecoando na serragem. A porta rangeu ao fechar. O cheiro de pólvora imaginária ficou no ar, misturado ao de cachaça e sangue velho.
Laura ficou parada, o corpo inteiro tremendo. Sofia virou-se devagar, os olhos úmidos, a voz agora baixa, rouca, quase um sussurro de ópera que só Laura podia ouvir.
— Não vamos fazer isso. Não vamos dar a ele o que quer.
— E o que vamos fazer? — Laura apertou a mão dela com mais força. — Deixar que as fotos saiam? Deixar que o mundo saiba o que somos e depois nos linche? Romero morreu por causa da verdade. E agora a verdade vai nos matar também.
Sofia encostou a testa na dela. O suor misturava-se. O calor do armazém parecia aumentar, como se o próprio ar quisesse sufocá-las antes que o inspetor voltasse.
— Então a gente mente. Mas não pra sempre. A gente mente até encontrar uma forma de virar o jogo. Até encontrar quem realmente mandou matar Romero. Porque esse policial não age sozinho. Nunca age.
Laura fechou os olhos. Imaginou o rosto de Romero na fotografia, imaginou as filhas dele lendo os jornais. Imaginou Sofia no palco, cantando com a voz rachada de fúria. Imaginou o beijo que as perdera e as salvara ao mesmo tempo. O amor agora era uma corda em volta do pescoço: apertar significava viver; soltar significava cair.
Do lado de fora, os primeiros fogos do Carnaval soavam distantes, como risadas de quem não sabia que dois mundos tinham acabado de colidir dentro de um armazém fedendo a morte. O sol terminou de se pôr. A escuridão desceu completa, grossa como o silêncio que elas teriam de manter até o amanhecer.
Sofia beijou a testa de Laura, rápido, desesperado. Depois soltou a mão.
— Vamos embora antes que ele mude de ideia e volte. Amanhã decidimos quem vai ser o bode. Mas não vai ser a gente.
Elas saíram pelo mesmo vão de porta por onde Vilela desaparecera. A serragem grudava nos sapatos, o cheiro de cachaça seguia-as como um fantasma. Lá fora, o Rio continuava a queimar em luzes e tambores, indiferente ao preço que duas mulheres pagariam para que um beijo e um cadáver permanecessem escondidos até o dia seguinte.