O sol de terça-feira caía como lâmina sobre o Terreiro de Jesus, cegando quem ousasse erguer os olhos. Laura apertou o quepe de palha contra a testa, sentindo o suor escorrer pela nuca e infiltrar-se pelo colarinho engomado da blusa. Ao redor, o ar vibrava com o cheiro acre de pastéis fritando em banha quente, misturado ao talco fino que as passistas sacudiam dos ombros nus e ao metal amargo dos pistões das bandas que marchavam sem parar. A multidão era um só corpo pulsante: homens de fraque puídos, mulheres de saias rodadas, crianças com rostos pintados de carvão e vermelhão. Serpentinas coloridas rasgavam o ar como feridas abertas, e o som dos surdos e cuícas batia no peito dela com a mesma insistência do medo.
Ela esperava junto ao coreto enferrujado, fingindo ler o jornal da véspera. A fotografia estava dobrada quatro vezes dentro da bolsa de couro, o papel já macio do tanto que os dedos dela a haviam apertado desde o baile. Cada dobra guardava um pedaço do segredo: Sofia de perfil, o rosto inclinado para o dela, a mão de Laura no quadril da cantora, o envelope com o timbre do deputado caído ao chão, legível mesmo na penumbra do salão. O chantagem não era apenas sobre o desejo. Era sobre o que aquele envelope revelava.
Sofia surgiu entre os foliões como uma aparição de candomblé. Ainda trajava a fantasia de baiana do desfile da manhã: saia branca de cambraia rodada, corpete de renda que marcava a cintura, colares de contas vermelhas, amarelas e azuis tilintando a cada passo, turbante de cetim branco preso com alfinete de pérola. O rosto estava pintado com leve talco e pimenta, os lábios vermelhos como quem acabara de beijar o santo. Os olhos castanhos varreram a praça até encontrar Laura. Um sorriso breve, quase dolorido, curvou sua boca.
— Não olhe para mim como se eu fosse notícia — murmurou Sofia ao chegar perto, a voz rouca do canto da noite anterior. As contas bateram entre si quando ela se inclinou para ajustar a alça da bolsa de Laura, gesto que podia passar por familiaridade de amigas. — Me dá a foto. Aqui não.
Caminharam juntas, arrastadas pelo cordão que descia a rua, os corpos roçando de leve. O cheiro de Sofia — talco, suor doce e o restinho de patchouli que ela usava nos palcos — invadia as narinas de Laura. Elas pararam ao lado de uma barraca de água de coco, onde o toldo listrado oferecia uma sombra mínima. Sofia pegou a fotografia entre os dedos anelados de contas e a desdobrou devagar, protegendo-a com o leque de palha.
O silêncio entre elas durou o tempo de uma respiração pesada. Sofia traçou com a unha o contorno do envelope na imagem.
— Isso não é só nossa pele, Laura. Olha o timbre. É do gabinete do deputado Vieira. A carta que ele deixou cair aquela noite… fala de propina para as escolas de samba. Se vazarem, ele cai. E nós caímos junto. Não é reputação. É cadeia. É exílio. É o fim de tudo que construímos.
Laura sentiu o estômago apertar como se o calor do asfalto tivesse subido pelas solas dos sapatos. Ela era jornalista; passara os últimos três anos expondo exatamente esse tipo de podridão nos jornais da rua do Ouvidor. Agora a podridão tinha o rosto delas. A ternura da noite do baile — o beijo roubado atrás da cortina, a promessa sussurrada de que o Carnaval seria só delas — parecia um sonho que o sol de terça-feira derretia.
— Eu pensei que fosse só chantagem de alcoviteiro — disse Laura baixinho, a voz quase engolida pelo trompete que explodia a dois metros delas. — Um chantagista comum quer dinheiro. Isso aqui quer silêncio político. Quem tirou a foto sabia que estávamos lá.
Sofia dobrou a fotografia de novo, os dedos trêmulos. Um grupo de passistas passou rodopiando, jogando confete que grudou no suor do colo de Laura. Por um segundo, o mundo ficou branco e dourado. Então Sofia estendeu a mão por baixo da saia de Laura, no vão entre os corpos, e apertou a palma dela com força. O gesto era invisível para quem passava: apenas duas mulheres se equilibrando na multidão. Mas o calor da pele de Sofia subiu pelo braço de Laura como febre.
— O amor agora exige cumplicidade — murmurou Sofia, os lábios quase encostando na orelha dela. — Não dá mais para fingir que somos só duas tias que se beijam no escuro. Quem quer nos calar já nos colocou dentro do crime. Se a gente não agir, viramos cúmplices do silêncio dele.
A palavra “cúmplices” caiu entre elas como um peso. Laura sentiu a ternura anterior rachar. O que antes era desejo puro — o tremor de Sofia contra seu corpo no baile, o riso baixo quando as luzes se apagaram — agora carregava o gosto metálico da culpa. Elas não eram mais apenas amantes escondidas. Eram duas mulheres que sabiam de um envelope e precisavam decidir o que fazer com ele.
O cordão avançou. Elas seguiram, ombro contra ombro, as contas de Sofia tilintando no ritmo dos surdos. Laura observava a multidão com olhos de repórter: o homem de terno marrom que não batia palmas, o chapéu panamá que ele ajustava toda vez que elas mudavam de direção, o modo como ele mantinha distância de três passos mas nunca perdia o rastro. Não era folião. Não tinha confete no cabelo, nem talco nos sapatos. Os olhos dele eram frios, de quem conta passos.
— Não olhe agora — avisou Laura, apertando a mão de Sofia por baixo da saia. — Tem um de terno marrom nos seguindo desde o coreto. Não é do cordão.
Sofia virou o rosto apenas o suficiente para ver o reflexo no vidro de uma vitrine de doces. O homem ajustou o chapéu outra vez. O coração de Laura bateu mais forte que os tambores.
— Se ele sabe do envelope, já sabe que a gente sabe — disse Sofia, a voz baixa e operística, como se entoasse uma ária de traição. — Não podemos esperar que o chantagista apareça sozinho. Precisamos confrontar quem mandou a foto. Mas não sozinhas. O inspetor que me deve um favor… ele pode nos ajudar a chegar no remetente sem que a gente vire notícia.
Elas pararam de novo, agora à sombra de um sobrado antigo cujas janelas estavam fechadas por causa do Carnaval. O cheiro de fritura e suor era mais forte ali, misturado ao doce de coco ralado que uma vendedora gritava. Laura sentiu o medo subir pela garganta como bile, mas também sentiu algo mais antigo: a raiva de quem sempre escreveu contra os poderosos e agora era escrita por eles.
— Onde? — perguntou ela.
— Na quadra abandonada da escola do Catete. Depois que o último bloco se dissolver, quando a rua ficar vazia. O inspetor vai estar lá. A gente leva a foto. A gente confronta. Juntas.
Sofia apertou a mão dela outra vez, mais forte, os anéis de contas marcando a pele. O olhar que trocaram foi breve, mas continha o peso de tudo que o sol de terça-feira não podia iluminar: o desejo que agora era cumplicidade, a ternura que o chantagem transformara em pacto de silêncio e sangue. Ao fundo, a banda explodia uma marcha-rancho, e as serpentinas caíam como cinzas sobre os dois corpos que já não pertenciam apenas a si mesmas.
O homem de terno marrom parou três passos atrás, fingindo ajustar o relógio. Laura sentiu o olhar dele nas costas como uma lâmina fria. O Carnaval continuava, ruidoso, dourado, implacável. Elas, porém, já estavam dentro de outra folia — uma de cinzas e segredos — e não havia como voltar para o baile.