O cheiro de terebintina azeda impregnava o ar do ateliê como uma camada de poeira invisível, misturando-se ao suor seco das paredes de tijolo exposto na rua Consolação. Elias fechou a porta de madeira rangente atrás de si, o trinco caindo com um clique seco que pareceu ecoar mais alto do que devia. Theo já estava lá, encostado na mesa de trabalho improvisada, uma garrafa de cerveja Brahma pela metade ao lado do cotovelo. A luz vinha de uma única lâmpada nua pendurada no teto, lançando sombras que esticavam os braços de ambos como se fossem tentáculos. Do rádio transistor no canto, um samba de Noel Rosa saía abafado, a voz distorcida pela estática, quase encobrindo o ruído constante da rua lá fora.
Elias se aproximou devagar, sentindo o peso do olhar de Theo sobre ele. Não era a primeira noite que terminavam ali depois dos bares, mas cada vez o silêncio entre eles carregava mais do que palavras. Ele pegou uma lata de tinta, girando-a entre os dedos, o metal frio contra a palma.
— O lugar está diferente hoje — murmurou Theo, inclinando a garrafa. — Menos gente na rua. Como se todos soubessem de algo.
Elias assentiu, o coração batendo mais forte. Ele queria aprofundar aquilo, transformar as noites em algo que rendesse mais que carícias e olhares. Queria segredos. O mentor preso há duas semanas ainda latejava na memória: o homem que lhe ensinara a misturar cores para capturar a angústia da cidade, levado em uma van preta do DOPS sem explicação. Elias precisava de alavanca. Algo que o fizesse decidir sem destruir tudo.
— Você ouviu alguma coisa sobre o inspetor? — perguntou ele, a voz baixa, quase casual, enquanto se sentava na banqueta ao lado. O rádio mudou para um bolero, a melodia arrastada preenchendo o espaço entre eles.
Theo sorriu de lado, mas os olhos não acompanharam. Ele estendeu a mão e tocou o pulso de Elias, um gesto que parecia elétrico no ar carregado. A pele dele era quente, cheirando a cerveja e a solvente.
— Inspector não é nome que se fala aqui, Elias. Você sabe disso.
Ainda assim, Theo não afastou a mão. Elias sentiu o pulso acelerar, não só pelo toque, mas pela possibilidade que ele carregava. Noites assim — sentados perto, compartilhando cigarros e silêncios — vinham se acumulando. Não era amor, não exatamente. Era algo mais apertado, como uma corda que podia enforcar ou sustentar. Elias pressionou mais.
— Mas você anda por aí. Sabe como as coisas funcionam. O inspetor tem rotinas, não tem? Todo mundo tem.
O rádio crepitou. Theo hesitou, os dedos apertando levemente o pulso de Elias antes de soltar. Ele se levantou, caminhando até a janela coberta por um pano sujo, espiando a rua lá embaixo. O som de cadeiras arrastadas veio do bar do outro lado da parede — novo cliente entrando, sempre aquele ruído que fazia o coração pular.
— Rotinas — repetiu Theo, como testando a palavra. — Ele passa pela rua Augusta toda terça, de manhã cedo. Compra pão na padaria do Seu Zé. Depois vai ao prédio cinza perto do viaduto. Nunca sozinho. Mas você não quer saber disso, Elias. Não vale a pena.
Elias sentiu o gosto amargo na boca. Ele pegou o bloco de desenho, abrindo-o sobre os joelhos. O lápis entre os dedos tremeu levemente quando começou a traçar as linhas do rosto de Theo — o queixo quadrado, os olhos fundos. Era pretexto. Queria mantê-lo ali, falando.
— Desenha comigo — disse ele, empurrando o bloco. — Assim a gente não precisa falar de nomes.
Theo voltou, sentando-se de novo. A proximidade era íntima, mas carregada: joelhos quase se tocando, o calor dos corpos no quarto pequeno. Elias traçava, sentindo o olhar de Theo percorrer seu rosto. Subtexto flutuava entre eles como fumaça de cigarro. Confiança erótica misturada à dúvida: será que Theo estava ali por ele, ou por algo mais? Elias calculava. Cada detalhe que arrancasse podia ser usado contra o informante que delatara o mentor.
— Você conhece gente que entra e sai daquele prédio — insistiu Elias, baixando a voz enquanto o lápis riscava o papel. — Nomes que ninguém mais sabe. Me conta uma coisa só. Uma rotina que ajude a entender.
Theo riu baixo, mas era riso nervoso. Ele pegou o próprio lápis, começando a rabiscar ao lado, linhas que se cruzavam com as de Elias. O samba voltou no rádio, mais alto agora, como se alguém tivesse ajustado o volume.
— Você está me pedindo demais, pintor. Eu vi o que aconteceu com seu mestre. Não quero o mesmo. Mas... tem um cara que o inspetor visita toda quinta. Alguém da rede. Não digo quem.
Elias parou de desenhar. O coração batia no peito como martelo. Ele inclinou o corpo para frente, o cheiro de terebintina subindo entre eles. O toque de Theo no braço agora era mais firme, quase possessivo, mas Elias via a hesitação nos olhos dele. Theo estava guardando nomes. Talvez para proteger a si mesmo, talvez para proteger a rede. Ou talvez para usar depois.
— Uma coisa só — repetiu Elias, a voz rouca. — Eu não vou usar contra ninguém. Só preciso saber se posso confiar.
O silêncio se alongou. O rádio soltou uma estática forte, interrompendo o samba. Theo mordeu o lábio inferior, olhando para o bloco. Então, devagar, tirou do bolso interno da jaqueta um papel dobrado, amarelo e gasto. Desdobrou-o na mesa, entre as latas de tinta.
Era um memorando do DOPS. Endereços datilografados, nomes riscados com caneta preta. Elias reconheceu dois: ateliês na Vila Madalena, um bar na Augusta. O papel cheirava a oficial, a tinta de máquina de escrever velha. Theo o empurrou para ele com dois dedos.
— Isso prova que eu sei mais do que conto — disse ele, a voz baixa. — Mas não me peça para entregar ninguém. Ainda não.
Elias pegou o papel, os dedos roçando os de Theo. O toque durou um segundo a mais. No peito dele, algo se decidiu: cultivar aquilo. Usar o amante como ponte e como arma. Vingar o mentor sem explodir a rede inteira. Mas o preço seria lealdades partidas, identidades que nunca mais seriam as mesmas. O rádio voltou à vida de repente, a voz do locutor cortando o bolero:
— ...relato de batida policial a dois quarteirões daqui, na rua Piauí. Suspeitos de atividades subversivas...
O som de sirenes distantes entrou pela janela. Elias dobrou o memorando devagar, guardando-o no bolso. Theo observava, o rosto meio na sombra. O cheiro de terebintina parecia mais forte agora, misturado ao medo. Elias traçou mais uma linha no papel, mas a mão não parava de tremer. Ele sabia que a escolha já estava feita. Cultivar Theo — como amante, como instrumento. Mesmo que o rádio continuasse crepitando, anunciando o próximo passo da máquina.